Antes de qualquer coisa, dêem play na trilha abaixo para melhor entrarem na atmosfera trágica do artigo.

Escrevo o presente post sob estado de desilusão, melancolia e leves pancadas de depressão. No dia de hoje, o Fútbol Club Barcelona foi eliminado nas quartas de final da liga dos campeões da Europa. Sim, a equipe catalã é meu time e ocupa a ribalta do meu pequeno, mesquinho e negro coração.  O que soa esquizofrênico para um menino tupiniquim, nascido numa família tricolor carioca com nuances de América FC. Todavia, para mim, a paixão pelo Barça sempre fez todo sentido do mundo. Justificada desde por minha primeira camisa de futebol, meu boneco do Ronaldinho e até pelos movimentos anarquistas catalães.

Fato é que toda eliminação é uma miséria para mim. Uma dor, desolação incomparável. Na desclassificação de 2010, para a Inter de Milão, agredi o porteiro com uma bola de futebol. Desculpa, seu Zezinho. Na eliminação de 2012 para o Chelsea, passei uma noite em posição fetal chorando na sala. Finalmente, em 2013, minha reação mais exacerbada na trágica derrota para o Bayern por 7×0, que gerou minha estada de 2 horas no banheiro com gritos de “vou me matar!!!”. E eu realmente procurei comprimidos. Hoje em dia as fatalidades catalães não mais me provocam tais reações shakespearianas, entretanto ainda latejam.

Tudo isso para justificar meu primeiro “Assista!” aqui no Metafictions, que vem no formato pulsante de catarse. Alguns filmes foram comparáveis a meu sentimento em noites de revés barcelonistas, porém pouquíssimos ultrapassaram.  Réquiem Para um Sonho é capaz de fazer o mais otimista, o mais de bem com a vida chafurdar numa depressão sem precedentes.

Espiral de melancolia

Obra prima pós-moderna de Darren Aronofsky (apontado pelo editor chefe Big Boss, Gustavo David, como o mais positivamente consistente diretor do século XXI) é uma das maiores porradas cinematográficas que se pode encontrar. Permeada do início ao fim por desespero e desamparo, Réquiem Para um Sonho é um filme fundamental para qualquer cinéfilo que se preze.

Logo no início somos confrontados com uma sequência aterrorizante de Harry (Jared Leto) roubando a televisão da própria mãe (Ellen Burstyn), tudo regido brilhantemente com uma direção claustrofóbica e uma montagem modernosa. Televisão que dá pontapé inicial a desesperadora trama, já que a mãe de Harry é convidada a participar de um programa e para isso tentará se preparar da melhor maneira para parecer bonita, o que termina por fazê-la consumir comprimidos nada saudáveis. Seu filho Harry, por sua vez, é um viciado em heroína, que tem a companhia da belíssima Marion Silver (Jennifer Connelly) e de seu amigo Tyrone (Marlon Wayans). O casal e o amigo tem o sonho de abrir um negócio  que os garanta segurança financeira e por isso resolvem juntar dinheiro.

Desamparo de carne e osso

Dividido em três partes, Verão, Outono e Inverno, a película constrói seus personagens com esmero e assistir as desventuras provocadas pela trama e pelas drogas se mostra um exercício especialmente traumático por isso. Os sonhos são deformados pelo tempo e pela própria obsessão dos personagens que, por seus desejos, se sujeitam a tudo.

O quarteto principal é formidável. Leto entrega um Harry atormentado, Marlon Wayans interpreta um forte Tyrone e Connelly dá vida a uma sedutora e destrutiva Marion. O maior destaque é Ellen Burstyn que faz a performance de sua vida e olha que ela interpretou a mãe da menina possuída do clássico intocável “O Exorcista”. A interpretação inclusive lhe rendeu indicação ao Oscar de melhor atriz coadjuvante.

De sua trilha sonora com o agonizante tema composto por Clint Mansell (que espero que você ainda esteja ouvindo) até a fotografia, que se utiliza de uma lente angular grande nas sequências sob o uso de entorpecentes, Réquiem Para um Sonho é um filme fascinante sobre desilusão, vício e humanidade, nua e crua. Além disso a narrativa nos conduz a interessantes e pertinentes reflexões que abarcam pressão midiática, sistemático doping psicológico e amor no século XXI.

“acordei e me olhei no espelho, ainda a tempo de ver meu sonho, virar pesadelo” Paulo Leminski

Como reflexão, viagem melancólica ou longa metragem, a obra é imperdível por retratar um mundo frio e cruel, onde não há primavera e tudo termina em inverno. Uma realidade em que meu Barcelona seria eliminado todo dia. Só não vale procurar por comprimidos após os créditos finais.

Sugestões para você: