“Tell my life I love her very much”
David Bowie, Space Oddity

Sentando neste pequeno trono de ferro ou deitado, como um Ozimandias moderno, ao se deparar com o Metafictions, você pode facilmente confundi-lo com o Vahalla dos sites de entretenimento. Sinceramente, não te culpo, honrado leitor. Todavia, apesar da interface supimpa, logo maneiro, críticas bem estruturadas e, conteúdo de qualidade todo dia, este site está longe de ser o Monte Olimpo. A maior prova disso é o nosso grupo de telecomunicações que, em contraponto à organização do site em geral, é um oceano de caos, permeado por discussões árduas e intempestivas entre Laryssa e Rene, Mestre Ryan Fields compartilhando pensamentos sobre os sapatos alheios e o editor-chefe, nosso viking moderno, Gustavo, impondo uma peculiar ordem.

Mais do que o grupo, o maior indicativo de nossa discórdia são as listas. Como é possível tantas discrepâncias? A diversidade é sensacional, todavia, em alguns momentos beiram o abismo. E, em alguns casos, em minha singela e humilde opinião, atrocidades são cometidas. Portanto, na minha condição de colaborador, venho aqui tentar reparar algumas delas por meio de nossos quadros.

E que melhor maneira de começar se não com Solaris, filme vencedor do prêmio do grande júri de Cannes em 1972? Trata-se de um filme de ficção científica que preenchia todos os requisitos para o nosso Top 10 – Filmes de Aliens, mas que foi largamente ignorado por todos exceto por mim.

A sala de espelhos

Andrei Tarkovsky está longe de ser conhecido por proporcionar filmes pipocas, o soviético era fã dos temas profundos, profusos, exaustivos e deliciosamente instigantes. Nesse sentido Solaris é uma pérola em sua filmografia de obras primas. Baseado no livro de Stanislaw Lem, a película foi meu primeiro contanto com o diretor que deu o empurrão fatal em minha paixão pelo cinema. Tarkovsky quase não conseguiu os direitos porque queria excluir todos os elementos de ficção científica, e, felizmente, acabou por ceder. O resultado é o único filme na história que pode rivalizar com “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick.

Em 1969, David Bowie encantava o mundo com sua canção Space Oddity. O ritmo era hipnótico, a voz apocalíptica, mas havia algo demasiado peculiar na letra. No completo desconhecido, sozinho na imensidão do universo, o Major Tom pergunta por sua esposa.  3 anos depois, no outro extremo do mundo, Tarkovsky conseguiu trazer esse contraditório para as telas. Solaris é um planeta formado por um oceano, que iniciou todo um novo ramo na ciência para estudá-lo. Porém, fatos estranhos têm ocorrido com aqueles que vivem na estação espacial que orbita o corpo celeste. Alucinações, visões e memórias reprimidas são os maiores sintomas. O famoso psicólogo Kris Kelvin (Donatas Banionis) é convocado para investigar a sanidade dos tripulantes. Entretanto, aquele que deveria trazer a ordem mergulha no caos e na estação espacial a mulher falecida de Kelvin começa a aparecer. Solaris se prova um planeta vivo que vai construindo ligações com aqueles que o estudam, fazendo aparecer o que mais desejamos e tememos.

Mestre trabalhando.

Utilizando táticas de iluminação visionárias, algumas das tomadas mais criativas já vistas e cenários extraordinários, Tarkovsky reproduz uma estação espacial apocalíptica onde anjos caídos perseguem fagulhas de suas fogueiras que já são cinzas. Aos poucos, o espaço vai se tornado quase um subterrâneo de Dostoiévski onde todos preferem ser o que não são e viver de miragem em miragem.

Em 1968, Kubrick mostrava um ser que não entendia, incapaz de moldar seu próprio destino, mergulhado num poço escuro de pré-determinismo sintomático. Mais do que isso, um mundo sem sentimento, mecânico. Tarkovsky assistiu “2001”, e sua resposta foi do mesmo nível. Solaris é sobre como mesmo no vácuo de tudo, sozinhos no escuro, o que importa continua sendo nossa casa, família, mulher, marido ou crianças. O que nos torna quem somos.  Na URSS, o filho do poeta foi capaz de amplificar o grito de Bowie por todos os confins do universo, numa mensagem de amor tão profunda que poderia até trazer paz para o grupo do Metafictions e mais harmonia em nossas listinhas.

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