Pouca gente percebeu, ou não quis perceber. No documentário “Democracia em Vertigem“, de Petra Costa, o ex-Presidente Lula está no banco de trás de um carro, quando a entrevistadora pergunta se ele tem algum arrependimento na vida. Ele coça barba, demora mas responde: “não ter controlado a mídia”.

Os ventos mudam. Agora, esse sonho é dos seguidores do Bolsonaro.

É sempre assim: certos políticos sempre querem matar o mensageiro para abrir e manter seus caminhos inflexíveis. Hitler, Mussolini, Stalin, Pinochet, Fidel, Tito, Chávez, Maduro, os ditadores brasileiros, uruguaios e argentinos, autoritários de diversas intenções, sempre tiveram a mídia sob seu controle e censura. Getúlio Vargas e seus capangas tinham mania de empastelar redações de jornais. Nem sempre conseguiram. A voz da oposição obsessiva apertou um gatilho histórico.

Millôr Fernandes dizia: “Imprensa é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.” D. Pedro II foi questionado por alguns integrantes da corte: “Imperador, o senhor não acha que está na hora de calar esses jornalistas?”. A sabedoria respondeu mais alto: “Se calarmos os jornais, como vou saber o quão vocês estão trabalhando errado?”.

A mídia sempre incomoda. Pode ser manipuladora, sim. Mas a diversidade de opiniões contraditórias é a garantia que a sociedade quer ou não quer ser manipulada. Assim é o que é. Comparando opiniões, rechecando informações, concordando, discordando, mudando de olhar, descobrindo novos olhares, separando o joio do trigo como fatos e fakes, exercendo o senso crítico, puxando fio de novelos, a Humanidade caminha aos trancos e barrancos. Queiram ou não queiram os censores de plantão.

No rolar da História, penso na dor de cabeça que foi uma certa capa da Revista Veja para Fernando Collor : “Pedro Collor conta tudo”, quem lembra? Ou o quanto gerou de insônia e enxaqueca o Washington Post para Richard Nixon.

O assunto é tão fascinante quanto polêmico. Até que ponto a mídia investigativa muda os rumos da História? O Cinema responde. E com vários bons exemplos, entre eles este Todos os Homens do Presidente.

O enredo, fidelíssimo à História, abriu uma ferida profunda até então tratada com band aid pelo Governo Nixon. Trata-se do escândalo de Watergate, que nasceu sub-reptício pelos meandros de Washington em 1972, mas ganhou proporções gigantescas, muito mais explosivas do que como foi tratada no início: uma simples invasão de ladrões na sede do partido oponente à Nixon.

Mas eis que surgem dois jornalistas afiados, que, ao puxarem o emaranhado de fios desencapados, revelaram ao mundo um espetacular caso de espionagem política que levou o presidente republicano Richard Nixon, eleito em novembro de 1972 para seu segundo mandato, à retumbante renúncia. O filme não poupa cenas históricas, intercaladas pelas dirigidas por Pakula, reforçando sua intenção de bem reproduzir do que é capaz o exercício do jornalismo investigativo.

Dustin Hoffman e Robert Redford interpretam respectivamente os jornalistas abelhudos Carl Bernstein e Bob Woodward, durante 138 minutos de suspense, tensão, perplexidade e impecável cinematografia, sob a batuta de Pakula, que, a princípio não seria o diretor. O preferido era o britânico John Schlesinger, que recusou o trabalho alegando que o filme deveria ser dirigido por um americano, pois teria o caso pulsando nas veias. Durante as investigações do caso Watergate, o verdadeiro Carl Bernstein se casou com Nora Ephron, que viria a trabalhar com o marido nos roteiros iniciais. Frank Wills, o segurança que descobriu a invasão no prédio, mereceu uma participação na trama, atuando como ele mesmo. Mas assim como o próprio caso real, houve percalços.

Os produtores não conseguiram autorização para filmar na própria redação do Washington Post.  Uma réplica da redação do jornal foi criada a toque de caixa em estúdio, o que custou à produção US$ 450 mil não previstos. Tudo pela arte. Tanto que o Washington Post não se furtou em colaborar com as filmagens,  dispôs de tudo que foi preciso, desde informações, arquivos até objetos de cena, para dar fidelidade à obra – afinal, era interesse do jornal se mostrar ao mundo como um agente desencadeador de um escândalo histórico.

Note-se na abertura e nos créditos finais o violento som de teclas de máquinas de escrever mesclado com sons de tiros de um revólver, exatamente para sublinhar que a liberdade de investigar, escrever e informar é a maior arma de uma sociedade verdadeiramente democrática.

Tal recorrente esperneio contra a liberdade de imprensa, muito em voga nas “democracias” contemporâneas do planeta, me levou a tirar um DVD empoeirado do meu baú de filmes imperdíveis. Não me arrependi. Muito pelo contrário: minhas convicções sobre o destampar dos esgotos ganharam mais robustez.

Só tenho a agradecer à liberdade do bom cinema. Ele, como arte e expressão, tem essa missão: registrar a História. Devemos a Todos os Homens do Presidente, no mínimo, uma reverência pela perpetuação do elogio à ética.

O filme não foi um escândalo em premiações. Na Academia, levou apenas dois Oscars: melhor direção de arte e melhor roteiro adaptado. Mas entrou para a História, dividiu águas. Os anos se passaram e outros filmes sobre mídia e política se sucederam. Só para citar alguns: “The Post – A Guerra Secreta, de Steven Spielberg, “O Custo da Coragem”, de Joel Schumacher, “Boa Noite, Boa Sorte”, de George Clooney (2007).

Mesmo assim, talvez não tenhamos aprendido a dar o devido valor à imprensa livre. Os odiadores atuais da mídia seguem espumando sua ira. Chega a ser indisfarçável. Os que se arrependem por não tê-la controlado ou os que sonham em cerceá-la não passam de manipulados por um medo assombroso, travestido de valentia.

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