Asma. Irritação espinhal. Gastrite. Tristeza. Sedução. Resfriado. Fraqueza intelectual. Estudo intenso. Ciúme e religião. Masturbação. Decepção. Mulheres.

Esses eram alguns dos motivos para internação em um hospital psiquiátrico da Vírgina, EUA, no final do século XIX, listados em registros oficiais dos pacientes. O que é ser louco, eu me pergunto? Por que, de acordo com a lista de um dos meus livros favoritos, “Listas extraordinárias“, eu teria corrido grandes riscos de ser enquadrada como pirada e mantida em reclusão? A história manicomial nos mostra que durante séculos a sociedade escarrou indivíduos que lhe davam muito trabalho e que, por não se encaixarem em seu aparato, eram considerados inúteis. Sem muitos rodeios, apesar de tentada a discorrer sobre a loucura e encher você, leitor, de referências historiográficas, loucura é e sempre foi incomodar. Loucura, por muitas vezes, é pura e simplesmente sair dos padrões, fazer barulho, arranhar roldanas sociais e sair de seu maquinário.

Aos 10 anos enquanto assistia a Um Estranho no Ninho pela primeira vez, nada disso fazia parte do meu imaginário. Meu contato com o mundo era pueril e eu não tinha ideia que estava prestes a ver um dos filmes que mais marcaria minha vida – e que influenciaria até hoje meu interesse pelo assunto. Graças a esse monstruoso clássico do Cinema mundial minha visão de mundo, à época inevitavelmente maniqueísta, expandiu-se.

“Which one of you nuts has got any guts?!”

Jack Nicholson é conhecido como McMurphy, um malandro que cumpria pena em uma penitenciária regular e, vadio que só, almeja passar o restante do tempo sem ter que trabalhar na cadeia. Para isso se tornar realidade, ele decide agir de modo que o setor penitenciário questione sua normalidade; ou seja, é irreverente o suficiente a ponto de lhe enquadrarem em um possível diagnóstico de insanidade. Dessa forma, ele é mandado para um manicômio para observação e a partir disso entra na vida dos pacientes do lugar, deixando um pouquinho de si em cada um deles. Um dos brilhantismos do filme está na inserção de pacientes reais e de ter sido filmado de fato em um hospício. Dizem, inclusive, que Jack Nicholson passou uns tempos lá para melhor ambientação do personagem.

O personagem de Nicholson, sem sombra de dúvidas, é o tradicional anti-herói: beberrão, inconsequente, “ladrão de galinhas” e, ainda assim, conquistador. Desde o início do filme, quando a história ainda está longe de estabelecer lados, pego-me cativada pela personalidade de McMurphy: ele é atrevido, determinado e confiante. A forma que se envolve com os pacientes e luta contra o sistema, apesar do próprio McMurphy ser falho, é inspiradora. Diante disso, eu não poderia me importar menos para o fato de ele ser um vigarista meio patife que só pensa em baseball e mulheres.

McMurphy e sua trupe de malucos beleza: Harding, Cheswick, Taber, Frederickson e Sefelt (esquerda para direita).

O ambiente no manicômio é de repressão e cada passo dado é controlado pela enfermeira Ratched (Louise Fletcher). A mulher exerce dominância psicológica em cada um dos pacientes, tirando proveito de suas fraquezas e deixando que suas vidas sejam definidas por elas. Através de atos “minimalistas” de perversidade, ela condiciona todos ali a aceitar rotinas medíocres e alimentar-se de um ciclo tóxico que impossibilitaria qualquer mudança de vida. Digo minimalista pois seus cortes são cirúrgicos e não causam alarde, ainda que danifiquem profundamente. A personagem é assustadora não por que mata, agride fisicamente ou grita: é justamente o oposto. Ela carrega no olhar poder o suficiente para fazer de fantoche todos aqueles pacientes e o faz com a calma de uma suposta enfermeira de bem. Tamanha psicopatia faz com que Ratched seja de arrepiar a espinha por sua frieza, calculismo e indiferença. Além disso, o que muito pesa nisso tudo é o fato de que a enfermeira poderia ser qualquer um no mundo real: Ratcheds, certamente, existem por aí.

Insatisfeito com a situação desumana a que seus companheiros eram submetidos, McMurphy torna sua despretensiosa jornada vadia em uma luta contra a consolidada ditadura da enfermeira. O hospício, antes depressivo e plácido, torna-se um lugar contagiado pelo jeito impulsivo e alegre do prisioneiro. Apesar da enraizada crítica no filme, a história é carregada por tomadas divertidas onde Jack Nicholson abençoa seu público como um irremediável otimista na nobre missão de libertar seus amigos.

Louise Fletcher como enfermeira Ratched. A atriz recebeu o Oscar de Melhor Atriz pelo papel e está em diversas listas de melhores vilões do Cinema.

Impecavelmente temperado com o melhor que o Cinema tem a oferecer, a obra-prima de Milos Forman traz elementos burlescos, dramáticos, tensos e dilacerantes. Por vezes até misturando um extremo ao outro. Afirmo sem titubear que Jack Nicholson está em sua melhor forma e construiu o que é hoje o melhor papel de sua carreira – e olhem que aqui jaz uma fã de “O Iluminado”! O restante do elenco compõe espetacularmente a obra, com menção especial ao personagem Chief (Will Sampson), um índio nativo americano de 2 metros de altura com coração puro e olhos expressivos. Vale citar também a segura estreia de Christopher Lloyd nos cinemas, mais conhecido por todos nós como o eterno Dr. Brown de “De Volta para o Futuro”.

Um Estranho no Ninho carrega merecidamente os 5 Oscars das principais categorias (Melhor Filme, Diretor para Milos Forman, Ator para Jack Nicholson, Atriz para Louise Fletcher e Roteiro Adaptado). Contudo, é para mim fora de questão considerá-lo apenas pelo que tange sua premiação recorde. O simbolismo que o filme estabelece e a reumanização sobre a visão de pessoas com doenças mentais ou psicológicas é imensurável. Através da história de McMurphy e de seu desenrolar, por vezes leve e cômico, por fim triste e, ainda assim, bonito, relemos o conceito da loucura dentro de nós mesmos. Remodulamos o batido estereótipo do louco enquanto ameaça à sociedade quando, incontáveis vezes, é mais um ser incompreendido e posto de lado. Não digo nada aqui com a intenção de deslegitimar a existência de doenças mentais e psicológicas; acredito que há sofrimentos do tipo habitando muitas pessoas. No entanto, a cômoda e estratégica ignorância projetada sobre tais é algo que deve ser repensado. Um Estranho no Ninho vem de mansinho mas também escancara um cenário merecedor de destaque e reflexão: O que é, afinal, ser louco?

*Um Estranho no Ninho está disponível na Netflix.

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