É impressionante a banalização atual do conceito de liberdade. Na infância, eu ouvia que a liberdade de um termina onde começa a do outro.  Adolescente inquieto – oh, redundância! -, incorporei que liberdade seria uma calça velha, azul e desbotada, do jeito que quiser. Fazia sentido ao transgressor da época, mas fui salvo a tempo por Cervantes: “A liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que os homens receberam dos céus. Com ela não podem igualar-se os tesouros que a terra encerra nem que o mar cobre; pela liberdade, assim como pela honra, se pode e deve aventura a vida, e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pode vir aos homens”.

Sábio Dom Quixote de la Mancha. Tanto que sua leveza flutuante pelo imaginário livre incorporou aos dicionários o adjetivo quixotesco, “aquele que age, impulsiva, sonhadora e romanticamente”. Certo. Nada mais livre do que sonhar sonhos impossíveis. Mas há definições cruéis, que fustigam a liberdade do personagem de Cervantes: “próprio de quem ostenta uma valentia que não possui”.

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A esquerda extrema crê que liberdade é exercer o direito de não ser explorado por outro ser humano, ter educação, saúde e repartir o ganho do trabalho entre os outros, sem discordâncias, sem acesso a livros e obras contraditórias, sem admitir o pensamento crítico, questionamentos, ok, sem jamais perder a ternura. Os liberais defendem a liberdade de mercado, enquanto se lixam para quem não tem oportunidade de competir. Já a ultra direita prega que liberdade é eliminar os opostos para garantir a sua, no que se confunde com o capitalista raiz quando atribui ao dinheiro o passaporte para seu mundinho de conforto, privilégios e riqueza acumulada. Pobre de espírito e de equivocada liberdade. Mal percebe que o sem teto ali na esquina está à espreita, como símbolo do curso da História que falha, tarda e clama por justiça. A liberdade do equilíbrio de pensamentos e atitudes anda em baixa nesses tempos de polarização que aprisiona.

Hoje vivemos em cativeiro. Ora pelas paredes de casa, ora pelo medo fora delas. A tragédia planetária imposta pelo coronavírus ganhou requintes de sadismo no Brasil e paralisou-nos por necessária orientação da ciência, limitou nossas ações, disseminou o medo da morte, comprometeu a liberdade de ir e vir, escancarou a desigualdade social.

A pandemia potencializou a tecnologia como o elo menos inseguro entre o ser humano que tem melhor acesso a ela e o mundo doente, mas não nos deixou a salvo de ouvir barbaridades: “Liberdade é o cidadão armado. Senão, será um escravizado.”  Mais torta que essa dessabedoria (existe essa palavra?), só a mente de quem proferiu e segue tamanho despautério.

Chega. Melhor falar de arte.

Zé Kéti opinou sobre liberdade em plena Ditadura Militar. Richie Havens cantou “Freedom” em Woodstock. Vandré falou de flores libertárias nos fins dos anos 60. “Liberdade, liberdade, abre as assas sobre nós”, assim a Imperatriz Leopoldinense revisitou o Hino da República na avenida, 100 anos depois da proclamação.

Não vou estender o elogio à liberdade pelos caminhos da arte em geral, porque o assunto aqui é Cinema puro. E exatamente sobre ela, a liberdade, que a sétima arte produziu um dos melhores exemplares do tema. Não a liberdade coletiva – também farta e belamente decantada pelo cinema -, mas a individual, tal combustível que move o ser humano em direção à vida, independente de juízo de valor.

Digo isso despido de toga para a refletir sobre meu filme da vez. A obsessão pela liberdade individual surge de um condenado à prisão perpétua pelo assassinato de sua mulher e do amante dela, que só ele sabe que não cometeu. Mas o que adiantava tentar provar sua inocência diante de um sistema tóxico e apodrecido? Daí, a busca para reparar por conta própria um dos maiores e desesperadores erros humanos: a injustiça sob o manto da Justiça.

Assim é Um Sonho de Liberdade, dirigido por Frank Darabont e adaptado pelo próprio de um conto de Stephen King. A saber: em 1946, o jovem contador Andy Dufresne (Tim Robbins) é sentenciado e enfurnado na Penitenciária Estadual de Shawshank, no Maine, uma concentração de indignidade, desmandos, covardias e corrupção. Andy passa a conhecer os horrores do Diretor Norton (Bob Gunton), o cruel diretor do presidio, que carrega a Bíblia como arma de controle, e também do Capitão Byron Hadley (Clancy Brown) que trata os encarcerados como subgente.

Ao longo da reclusão desumana, Andy cria uma inabalável amizade com Ellis “Red” Boyd (Morgan Freeman), um velho presidiário, que já cumprira 20 anos de pena por contrabando, com um comportamento disciplinado exemplar e totalmente reabilitado a se integrar à sociedade. Mas a burocracia suja, corrupta e parcial adia sucessivamente a liberdade de Red, o que aumenta a cumplicidade e a sede de justiça do amigo Andy. A luta de um passa ser a do outro e o filme se revela uma emocionante apologia ao companheirismo, à amizade e à dignidade.

A aproximação de Andy com o diretor Norton cria uma relação de distintos interesses. O diretor corrupto confia sua contabilidade escusa às habilidades matemáticas de Andy, que, por sua vez, encontra a possibilidade de ter nas mãos um trunfo: as falcatruas do diretor em minúcias. Há um desfecho típico da jornada do herói que se vinga e mais não digo.  Façam como eu: abram o baú dos Blue Rays e vejam ou revejam o filme.

O roteiro já era desejado antes mesmo de ir para o set. Tanto que Clint Eastwood, Harrison Ford, Paul Newman e Robert Redford se candidataram para o papel de Morgan Freeman (originalmente no conto de King um irlandês ruivo). Mas Darabont escolheu um negro carismático e seu vozeirão aveludado cuida de narrar a história, criando aqui inclusive a lenda do Morgan Freeman narrador.

Curiosamente, o filme foi aclamado pela crítica e fracassou na bilheteria, fiasco atribuído a alguns motivos procedentes. Foi lançado no mesmo tempo de “Pulp Fiction” e “Forest Gump”, dois notórios estrondos.  Falta de interesse popular em histórias sobre penitenciárias. Ausência de personagens femininas. Seu título original, The Shawshank Redemption, confuso e difícil de dizer, até para quem tem inglês nativo – tente pronunciar tal nome olhando para o espelho.

No entanto, o jogo virou no seu relançamento, conquistando o coração do público, faturando o que não tinha faturado e sobre este chantilly recai uma cereja: Um Sonho de Liberdade entrou para a história como um dos filmes mais amados de todos os tempos. Bateu o recorde de locações de vídeo e figura há anos no topo dos 250 mais vistos e queridos fora das telonas. Loas aos DVDs, Blue Rays, TVs abertas e ao streaming.

Um Sonho de Liberdade é obrigatório nesses tempos de dor e incerteza, porque, tal como a vacina, é uma injeção de esperança. Sua narrativa épica e libertadora, seu roteiro bem engendrado e sua homenagem à resiliência bem contada são de tirar do chão os pés dos sensíveis – os que o são por natureza e os que o estão pelas circunstâncias da vida.

Se a conjuntura está devendo liberdade, saúde, decência, humanismo, luz, justiça e serenidade, só a esperança é capaz de nos livrar da prisão. E não há nada de quixotesco nessa conclusão.

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