Não sou juiz. Não sou delegado de costumes. Não sou vizinha faladeira. Muito menos lacrador, cancelador (nome moderninho da vizinha faladeira nesses tempos em que muitos se dão o direito de julgar com os dedos nervosos que teclam, sentenciam, lincham).

Hora de falar de Woody Allen. Se é culpado, inocente, se foi pervertido, se é vítima de ressentimentos, se caiu nas armadilhas do amor, não me interessa. Que a Justiça faça a sua parte, que advogados, promotores, testemunhas e investigadores entrem em cena, que as Matildes cansem suas bocas, enquanto fico com o deleite de sua obra de cineasta, pensador e roteirista genial. Um dos melhores criadores de diálogos, o que só por isso merecia um Nobel de Literatura – com o perdão dos acadêmicos, sim, diálogo bem tecido no cinema é literatura da maior fineza.

Meu primeiro contato com um filme de Woody Allen me matou de rir e me elevou: “Um Assaltante Bem Trapalhão” – a detestável tradução brasileira de “Take The Money and Run” (Pega a Grana e Foge, em tradução livre), na opinião do próprio Allen. Depois vieram outros que me lembravam a infância, quando ia ao cinema para me divertir e chupar drops Dulcora. Enquanto me tornava mais crescidinho, WA também crescia em profundidade, sutilezas e perfeita percepção da alma humana.

Minha filha caçula tem mania de ranquear as coisas. Vive me perguntando qual a melhor música dos Beatles, qual o melhor livro que já li, quem é meu preferido entre Chico, Gil, Caetano, Tom, Vinícius e Milton Nascimento. Nunca soube responder, assim como empaco na hora de escolher o melhor filme de Woody Allen. Lembro de um amigo que dizia “Filme de WA é que nem pizza e sexo. Mesmo quando não é grande coisa, é sempre muito bom”.

Hoje escolhi o raro Zelig, uma obra que paira naquela nuvem transitória cronológica entre o Woody Allen que mata de rir e o Woody Allen que eleva a alma da gente.

O filme é um misto de ficção, documentário e História. Seu protagonista, Leonard Zelig, um sujeito comum, sem brilho ou personalidade expressiva, apresenta uma capacidade insólita de transformar sua aparência na das pessoas ao seu redor. Aí que Woody Allen deita e rola. Começa numa festa, onde F. Scott Fitzgerald percebe um homem que circula entre os convidados abastados, com um jeito de falar e se comportar refinado e esnobe. Em instantes, o homem se mistura à turma da cozinha, vociferando contra a elite dos salões num forte sotaque proletário. E assim Fitzgerald descobre Zelig, o extremo do mimetismo que se torna um fenômeno internacional: o Homem-Camaleão.

A psicanalista Eudora Fletcher (Mia Farrow) se interessa em estudar a patologia inusitada de Zelig. Pela hipnose, a médica descobre que Zelig é um obsessivo por aprovação social, a ponto de se alterar fisicamente na esperança de pertencer aos diversos grupos que o cercam. Mas Woody Allen é Woody Allen: não poderia deixar de criar um imbróglio típico de sua obra. Fletcher se apaixona por Zelig e vice-versa, prato cheio para a mídia que transforma os dois em elementos da cultura popular da época. Mais que isso, uma febre consumista onde até miniaturas de Zelig são vendidas em camelôs de Nova York. Cartazes e letreiros luminosos explodem pela cidade, jingles são criados e cantados pelo povo, que dança o Ritmo do Camaleão em cada esquina.

No entanto, a mesma sociedade que fez de Zelig um produto de alto consumo passa a descartá-lo. Vira coisa comum. A patologia, então, se intensifica, o transtorno vai aos píncaros, Zelig não dá conta e, de repente, some do mapa. Fletcher vai encontrá-lo na Alemanha, nas fileiras nazistas, às portas da Segunda Guerra Mundial. Juntos voltam à América, ele, pluriapto que é, cruza o Atlântico pilotando um avião de cabeça para baixo e é aclamado novamente como herói.

Zelig é um retrato estético de uma época, numa linguagem de documentário em sépia no qual o próprio WA arranhou literalmente a celulose da fita revelada para dar mais cara de filme velho. Claro, quando o filme foi lançado em 1983, não havia o apuro da varinha mágica da computação.

A história não deixa de ser atual. Trata de um comportamento de fartos exemplos, tanto pela necessidade que pessoas têm de se moldarem a uma situação – ou a outras pessoas – para serem aceitas, quanto pela exploração instantânea de mitos que a mídia constrói e destrói, ainda mais hoje, turbinada pelas redes sociais.

A autobiografia de Woody Allen e sua deliciosa conversa com Pedro Bial no GloboPlay me levaram ao baú dos filmes eternos. Entre tantos Woody Allens, Zelig estava lá, travestido de DVD, me convidando a assisti-lo novamente.

Darwin diz que quem vence na natureza humana não é o mais forte, como reza o senso comum, mas o que tem melhor capacidade de se adaptar. Se os meteoros lacradores caem sobre as obras de arte dos gênios, torço para que essa espécie de ser humano diferenciada e criativa não seja extinta, por mais que queiram os que optam por não distinguir as criaturas da vida pessoal de seus criadores. Torço muito para que a imortalidade de Woody Allen se adapte como Zelig a esses tempos virulentos e ainda nos ofereça, mesmo aos 85 anos, mais e mais filmes iluminados. Sempre tão meritórios como pizza e sexo.

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