Quando eu tinha lá meus 14, 15 anos e cursava o ensino médio na bucólica freguesia da Ilha do Governador, eu e Igor, um dos meus melhores amigos e irmão que a vida me deu, conversávamos sobre os mais diferentes assuntos. Muitas vezes éramos acompanhados por outros amiguinhos e, como acredito ser inevitável nessa idade, falávamos muito sobre o futuro, com o diferencial de que tínhamos o Igor no grupo. O diferencial do Igor era que toda e qualquer conversa sobre o futuro envolvia a seguinte hipótese:

“E se [inserir nome de apresentador de televisão com fama de homossexual muito famoso na década de 90] te oferecesse 1 milhão, sua carreira lançada e uma noite louca de sexo com a PÂÂÂÂÂÂÂMELA Anderson pro cara te dar uma mamadinha?”

Não importa qual fosse a resposta, Igor te chamaria de viado seja por não estar disposto a tudo para comer a PÂÂÂÂÂÂÂMELA Anderson, seja por deixar um homem te dar uma mamadinha.

Guardavida, mamarola, salvavida… tanto faz.

Enfim, o que eu quero dizer com isso é que Pamela Anderson e suas tetas saltitantes nas tardes da Globo epitomizam tudo que a série “SOS Malibu” representava pra galera: gente bonita, sarada e com pouca roupa correndo por Malibu e se metendo em enrascadas que nada têm a ver com o que a lei e o bom senso ditam que devem ser as atribuições de um salva vidas. Era um tal de David Hasselhoff e seu peito cabeludo sempre à mostra salvando a praia de traficantes pra lá e um tal de Pamela Anderson resolvendo um caso de assassinato pra cá, sempre com roupas justas e decotadíssimas (isso quando havia roupa).

Ninguém via “SOS Malibu” pela profundidade de seu roteiro ou pela qualidade da atuação, tanto é que em algum momento trocaram Pamela Anderson por Carmen Electra e a quantidade de punheta da galera continuou igual. A ideia de sucesso – e que gerou 11 temporadas de uma série horrorosa – era a de colocar gente bonita e com pouca roupa em situações inverossímeis. E tetas balangantes.

Seth Gordon entendeu isso e fez uma versão cinematográfica perfeita nesse sentido. Absolutamente TODAS as atrizes do filme são lindíssimas e, principalmente, têm seios fartos que balançam bela e harmoniosamente na câmera. Já os atores, à exceção do gordinho alívio cômico, seguem a mesma lógica. Desta vez, contudo, a decisão foi levar a coisa mais para o lado da comédia e da galhofa, o que é um grande acerto em uma praia onde os guarda vidas tiram onda de polícia, o que é devidamente zoado praticamente o filme todo.

As mãos estão na frente, mas dá para se ter uma noção.

No longa, Mitch (Dwayne Johnson) comanda um ex nadador olímpico caído em desgraça inspirado em Ryan Lochte (Zac Efron), três gostosas (Alexandra DaddarioKelly Rohrbach e Ilfenesh Hadera) e um gordinho nem tão engraçaralho assim que sabe mexer em computador (Jon Bass) – todos eles com nomes idênticos aos dos protagonistas da série televisiva – numa trama sem pé nem cabeça que leva este grupo de guarda vidas a negligenciar por completo a segurança dos banhistas e tentar desbaratar os planos maléficos de uma quarta gostosa (Priyanka Chopra).

Enquanto filme, Baywatch não funciona. Apesar dos personagens serem até bem desenvolvidos dentro do contexto da película, o roteiro age meramente como um artifício que permita gente cuja beleza chega a arder os olhos se exibir. A história, apesar de ter o acerto de não se levar a sério, é inverossímil demais e só se sustenta mesmo no poço sem fundo de carisma que é The Rock, o que se mostra insuficiente nas exageradas quase 2 horas de exibição.

Espectador de SOS Malibu sendo pego no chuveiro ao se lembrar de CJ.

Contudo, enquanto comédia de esquetes, até que o filme tem seu valor, em especial nas boas piadas trocadas entre The Rock e Zac Efron e nas constantes discussões que Mitch tem com quase todo mundo sobre o absurdo que é um salva vidas pular de um iate que explode ou de ter a pretensão de investigar uma quadrilha de traficantes de drogas. Ao fazer piada consigo mesmo e com a série original, a película acerta na mosca, tal qual o fez o Anjos da Lei, que também pegou uma série famosa do passado a esculachou.

Contando com participações especiais de David Hasselhoff e PÂÂÂÂÂÂÂMELA Anderson, Baywatch: S.O.S. Malibu é um filme divertido, com algumas boas piadas quando não se leva a sério, mas que fracassa miseravelmente quando tenta ser um filme de ação/policial e ter alguma coesão.

Assim como na série de TV, o recurso da câmera lenta (devidamente zoada no filme) continua a ser a sua razão de ser e combustível para muitas “homenagens”. O Igor, tenho certeza, já comprou seu ingresso.

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