Ahhhh, os anos 80. Que época saudosa, que época gostosa. Como era bom ter 7 anos e não entender porque meu pintinho ficava duro todas as manhãs. Como era excelente fazer parte de uma geração cuja pretensa rainha dos baixinhos estrelara uma pornochanchada com notas de pedofilia pouquíssimo tempo antes. Que saudades das manhãs em que o apresentador infantil que era então meu ídolo maior cantava sobre como bem conduzir o tráfico de drogas valendo-se de farinha como analogia.

E, puta que o pariu, como este Bingo: O Rei das Manhãs traduz bem o que foi essa época, ainda que de forma um tantinho exagerada em alguns momentos. Para você, jovem mancebo juvenil, que for assistir a este filme e achar furo ou forçação de roteiro alguém ter deixado a Gretchen se apresentar com quase roupa nenhuma e empinar a sua bunda diretamente para a plateia de jovens ainda experimentando com os rudimentos da punheta, eu posso te garantir: é tudo real!

Gretchen, inclusive, era fichinha – já que ela se apresentava apenas esporadicamente – em comparação aos modelitos de fazer corar Panicats usados por Xuxa ou Mara Maravilha, as duas mais “homenageadas” pela galera. Quem nunca quis ser um curumim da Mara ou um baixinho da Xuxa que atire a primeira pedra.

“Bingooooooooo!!!” Mauro, Edson.

O longa é baseado livremente na vida de Arlindo Barreto, o Bozo (ele faz uma ponta no filme inclusive). Barreto aqui se torna Augusto Mendes (Vladimir Brichta), um ator de pornochanchada, filho de uma diva decadente e arremedo de artista que se interessa muito mais pelos holofotes e aplausos do que por qualquer verdadeira integridade artística. Um belo dia, Augusto vai à TVP (versão do filme da TVS, nome antigo do SBT) para fazer um teste para uma novela daquelas do SBT que ninguém via na década de 80. Lá ele se depara com uma fila de gente fazendo testes para viver o palhaço Bingo (a versão do filme do Bozo) – “líder de audiência por dez anos” segundo o que a diretora da atração, Lúcia (Leandra Leal), irritantemente repete a cada segundo – e, buscando a fama, ele resolve mesmo é fazer o teste para ser o Bingo.

Depois da hilariante cena em que consegue o papel e na qual somos apresentados à patética e pândega gargalhada de Vasconcelos (Augusto Madeira), o câmera, Augusto agora precisa lidar com o sucesso, com a fama e com a ausência de seus tão amados holofotes quando se interpreta um personagem mascarado e cuja identidade, por contrato, não pode ser revelada. Isto acaba por levá-lo a uma espiral de cocaína, orgias, uísque e mais cocaína.

Daniel Rezende, já internacionalmente reconhecido por seu trabalho como editor de obras primas do cinema nacional como “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite“, mostra a que veio com um primor técnico até mesmo incompatível com um sujeito que faz sua estreia na direção. Ele apresenta a intenção de contar a história muitas vezes apenas com a imagem e, apesar de pecar de leve pelo seu excesso de virtuosismo técnico, consegue com muito louvor. Certa cena, de algo em torno de 5 minutos, não tem qualquer corte aparente, mesmo viajando no espaço e no tempo, tamanho é o controle do diretor sob seu ofício imagético.

“Alô, Bingo, vai tomar no seu cu!”

Já os atores e sua direção muitas vezes não são ajudados pelo roteiro um tantinho forçado, e acabam por apresentar performances irregulares. Se do meio para o final do filme Brichta está irrepreensível em seu retrato de Bingo, sua construção como paizão ator de filme pornochanchada no início do longa parece um tanto forçada, talvez um pouco novelística até. O filme, inclusive, segue um pouco por este mesmo caminho, parecendo guiar o caminho da história até o momento em que Augusto se torna Bingo, que é quando o longa deslancha.

Apesar de eu ter sentido falta de uma música do Roupa Nova ou de uma aparição do Biro Biro, o fato é que esta obra se sustenta excessivamente na nostalgia que qualquer retrato de uma época sempre vai ter, em especial ao se considerar que o Bozo foi realmente importantíssimo na vida das crianças que, como eu, tiveram entre seus 3 e 10 anos em algum momento durante a década de 80. Para localizar ainda mais a obra nos anos 80, a trilha sonora é usada de forma até mesmo obscena, com grandes sucessos de artistas nem tão grandes assim como Supla e Dr. Silvana (a razão de eu hoje gostar de rock), mas que marcaram época.

“Ela foi dar, mamãe!” Silvana, Dr.

Bingo: O Rei das Manhãs é uma ode aos anos 80, mas, felizmente, é MUITO melhor que a produção cinematográfica nacional da época e vai bem além da mera homenagem. Trata-se de um dos melhores filmes nacionais de 2017 até o momento (junto com o O Filme da Minha Vida), ainda que carregue algumas inconsistências, e apresenta ao mundo um diretor extremamente promissor na pessoa de Daniel Rezende.

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