“Verdade ou consequência?” pergunta Emma Stone; “Verdade”, responde Edward Norton. “Você é monótono”, ao que ele retruca “a verdade é sempre mais interessante”. E a partir dessa dicotomia entre verdade e ficção (não entendendo esta como mentira, certamente) Alejandro G. Iñárritu realiza um filme notório que fala sobre o conflito de cada um: a busca implacável pelo reconhecimento. Durante cerca de duas horas, estamos de frente para o conto de Riggan (Michael Keaton), um ator de Cinema conhecido por sua franquia como “Birdman”, uma espécie de herói ao melhor estilo quadrinhos, completada há décadas atrás. Ele tenta ressurgir através da direção e atuação em uma peça da Broadway, querendo, desta vez, ser reconhecido como alguém de peso no mundo propriamente artístico.

A opção de Iñárritu por filmar a história quase que toda em um plano sequência nos faz sentir como se nada parasse por um só momento. Estamos dentro da cabeça de Riggan que – como o próprio fala em determinado momento – já não consegue dormir, tamanho estresse e pressão sob os quais está submetido. E dentro de sua cabeça está também seu alter ego, constantemente puxando-o para o limite extremo: a voz grossa do herói Birdman, como se o personagem atuado por ele na supracitada franquia realmente existisse e, de fato, fosse ele. Eles se digladiam em debates interiores, argumentando quem está certo e que caminho devem seguir. Ambos desejam o poder, o reconhecimento; mas de formas distintas. Birdman – o alter ego – quer mostrar para o mundo do que são capazes, como eram nos filmes das décadas passadas; Riggan Thomson quer ser mais do que isso, mais do que a caricatura de um super-herói com poderes bizarros: ele precisa que o vejam como um artista de verdade (batalha dificílima, assim como Batman e Bane; Super-Homem e Criptonita; Homem-Aranha e Duende Verde… na realidade, acredito que Thomson estivesse travando uma guerra ainda mais intensa e covarde do que as dos exemplos).

Neste momento, Iñárritu aproveita para se colocar diante dos críticos que, sem considerar a essência da obra, já a julgam de acordo com seus conceitos a priori. Vou mais além: o filme Birdman me parece ser o próprio Birdman de Alejandro; sua voz interior, a forma como olha para o mundo artístico, seus produtores, o público, os críticos, seus atores… há algo mais certeiro nesta história do que Edward Norton – conhecido por ser um ator deveras genioso – interpretar um ator deveras genioso?! Ou a opção por Michael Keaton – o ex-Batman – que andava desaparecido das grandes obras e retorna imponente – digno não apenas de uma indicação, mas merecedor do prêmio da Academia? O filme se faz referência o tempo todo, discute a Arte e fala sobre a vida a cada instante. É um excelente exemplo do que seja metaficções (estaria eu, aqui, aproveitando para fazer uma referência à minha própria produtora/site? Se sim, perfeitamente cabível, dada a construção desta obra e da presente resenha).

O constante medo do fracasso leva Riggan ao seu extremo, chegando a uma dura luta direta contra seu alter ego Birdman. Tudo o que mais quer é ser devidamente reconhecido pelo novo trabalho que traz ao público. Ele precisa se sentir poderoso; ele precisa que as pessoas o reconheçam, não apenas seu esforço, mas o seu valor, o seu talento. Riggan precisa atravessar todos os limites, sacrificar tudo o que tem na vida – dinheiro, posses, família, relações pessoais; Thomson precisa do seu troféu: algumas boas palavras em uma folha de papel escritas por uma velha que se considera a dona da Arte Teatral da Broadway; folha essa que, após um dia, provavelmente será o confortável receptor das necessidades fisiológicas de um animal quadrúpede. Qual será a conclusão da história dele? E se ele conseguir? E então…? “Perguntas são um fardo e respostas uma prisão para o indivíduo”, disse uma vez o brilhante músico Bruce Dickinson. Será que farei a diferença? Será que me tornarei poderoso diante do mundo artístico? Essas perguntas consomem o “eu” do ator ressurgido. Mas as respostas o prenderiam? Caso vença, o que fará após a sua conquista…? …”How did we end up here in this shit hole?” (“como fomos parar nessa pocilga?”) se pergunta Riggan/Birdman em seu camarim.

Birdman nos traz o roteiro, a peça, o filme, o conto da vida. O que é a “pocilga” sobre a qual Riggan faz referência? A vida, ela mesma. Birdman sou eu; é você; somos nós; batalhando e sacrificando tudo o que temos apenas para sermos importantes para alguém, enquanto, na realidade, nada importa, pois não somos nada para ninguém e devemos nos acostumar a isso – com a exata frieza e violência falada por Emma Stone. Iñárritu vai até as profundezas de seus conflitos pessoais para nos trazer ao nosso próprio embate cotidiano. Alejandro nos coloca na valsa amarga de um baile à fantasia sem máscaras. E que obra de Arte, senhor Iñárritu!

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