O primeiro longa-metragem de Carolina Jabor. Uma hora e meia de duração que se prolonga durante seus primeiros tempos como se fosse muito mais. O enredo, um drama romântico que trata de drogas, problemas familiares, negligência, conceito de anormalidade e exclusão dos “anormais” da sociedade, tem tudo para uma mistura minimamente interessante. Mas não é bem o que acontece. João conhece Judite numa clínica de reabilitação; ele, ao que tudo indica, depressivo e com tendências à esquizofrenia (mas não é mostrado veemente pelo filme, que descarta sinais como o ouvir de vozes e mania de perseguição que caracterizam a doença). Ela, como a própria conta, já experimentou de tudo: desde maconha à heroína, desde diazepam a rivotril, e é HIV positivo.

Os dois se envolvem e vivem um romance, espelhando no outro o que sente falta em si mesmo; João, ignorado pelos pais, sente falta de amor, carinho, atenção. Judite, distanciada da família, sente falta de companhia, conversa, compreensão. A união da necessidade de cada um forma um laço bonito até, porém, que poderia ter sido mais profundamente explorado durante o desenvolvimento da trama. Nela, é mostrado basicamente as aventuras que os personagens vivem, as ditas “loucuras” que Judite proporciona ao menino, o que remete à uma mistura de cenas de libertação de “O estranho no ninho” e “Garota interrompida”.

O lado psicológico deixou muito a desejar. Não explorar o interior positivo de cada personagem,focando em muito nas suas dependências e tristezas, tornou o filme um tanto quanto cansativo e diria até depressivo. O aumento do sentimento de amor criado pelos personagens traz uma sensação de felicidade mas, ao mesmo tempo, de desespero ao espectador, já que se sabe que os dias da sua amada estão contados. A dependência sentimental que João cria por Judite, misturada com o próprio amor, causa preocupação; Judite se afasta. No decorrer da trama, são criadas metáforas para João, o que poeticamente se torna muito bem feito. Essas metáforas salvam o final que, embora um pouco inesperado depois de um filme de carga tão negativa e pesada, pode ser considerado seu ápice. Nele, a diretora dissolve toda a delicadeza de Judite, o real sentimento por João, seus pensamentos sobre a vida e o lirismo contido na história; ali, o título “Boa Sorte” serve com incentivo para a retomada da vida de João.

Uma das melhores frases ditas por Judite é, prestes a morrer, pedir para que João continuasse vivo. Pode soar óbvio, afinal ele continuaria respirando, andando, falando. Mas vivo por dentro. E isso foi uma jogada de mestre para equilibrar toda a temática que serve como âncora para o espectador, afundando-o junto às histórias de vida dos personagens. A fusão desses elementos configura o longa de qualidade mediana, o que se torna decepcionante para uma temática que proporciona tantos caminhos e tanta profundidade. Optar pelo raso e simples do início ao meio foi o grande pecado; o desfecho profundo contentou um pouco àqueles que tanto esperaram a estréia dessa sorte, nem tão boa assim.

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