“Com o tempo você vai entender. O que fica, fica; o que não fica, não fica. O tempo resolve a maioria das coisas, e o que ele não consegue resolver, você mesmo terá que resolver.”

A frase do escritor nipônico Haruki Murakami em seu romance “Dance, Dance, Dance” me seria muito útil nas brumas de 2014. Enquanto me refugiava em potes e mais potes de sorvete, doses homeopáticas de fritura e me retorcia ao som de “Stop Crying Your Heart” do Oasis eu pensava em por que eu não poderia ser uma pulga lunar. Sou alma encardida, coberta por anseios existenciais e lamentos viscerais, e a maioria das pessoas entende o desprezo, a indiferença alheia como mera preferência. A minha versão juvenil entendia a rejeição como derradeira ofensa do mundo. Estava com o coração despedaçado, as energias vitais escorrendo e uma dúvida pairava por minhas sinapses?

“Tenho tudo e não sou feliz. Por que? ”

Remoía desde a revolução que não vivi, até a placenta agridoce da criadora, invejando os espermatozoides derrotados de meu pai. E no fim, como todo pequeno burguês, de óculos redondo aos 13 anos, concluí que o universo era um lugar ingrato e opaco, e não merecia minha crise existencial. Todavia, ao invés de ir à academia ou ligar o Bon Jovi no máximo, eu me escondi. Naufraguei num emaranhado de Netflix. Naquela época, Murakami era apenas um nome empoeirado na estante de minha mãe, mas a mensagem chegou, por um cavalo falante, com um paletó mal cortado, suéter apertado, confinado em Hollywoo, a sua própria versão satírica de Hollywood.

Num primeiro relance, BoJack Horseman pode parecer mais uma animação de humor negro que pretende te divertir enquanto você gargalha da sua própria miséria. E a narrativa até faz isso, porém é impossível comparar a produção da Netflix a seus contemporâneos, o ignóbil “Archer” e o superestimado “Rick and Morty(Nota do Editor: Rick and Morty é foda!!!).

Fato que, apesar de demorar a engrenar em sua primeira temporada, a série é uma mistura de existencialismo sartriano, com absurdismo camusiano, referências esbaforidas e cruéis ao mundo das celebridades e uma zoomorfização visceral. Num mundo onde não há distinção entre humanos e animais, BoJack é um ator frustrado, não por falta de oportunidades, dinheiro ou afago, mas por que tem tudo e não consegue ser feliz. No primeiro relance um Narcísio, mesquinho e obcecado com seu próprio vazio, termina por se tornar um dos mais profundos e relevantes anti-heróis de nosso tempo, estando lado a lado de Don Draper, Walter White ou Frank Underwood.

Faz três anos que BoJack Horseman é parte integral de minha vida. Faz três anos que eu e o cavalo responsável pelo sucesso “Horsin’ Around” tateamos mundo afora em busca de uma resposta que preencha, que afague. O saldo até agora são inúmeros potes de sorvetes, algumas crises existenciais, gargalhadas e lágrimas. A crescente da produção é nítida e teve seu ápice com uma terceira temporada surrealista, ambiciosa e kafkaniana. Com tudo isso dito, o quarto ano de BoJack estava envolto em um véu absurdo de expectativa e um estoque enorme de potes de sorvete.

O resultado foi mais uma temporada soberba, repleta da filosofia, dramaticidade, sátira e até leves pitadas de otimismo. Agridoce.  Cada vez mais neurótica e cavando seu próprio abismo, a série conduz seus personagens por espirais de paternidade, política e remorso, porém mesmo tecendo as florestas e bosques para prendê-los, o roteiro é engenhoso em sempre deixar migalhas de salvação.

O cavalo protagonista (cuja voz original é de Will Arnett) já não é tão presente, dividindo o protagonismo com Diane (Alison Brie), personagem cada vez mais madura e descendente no buraco do coelho camusiano de BoJack.  Mr. Peanbutter (Paul F. Tompkins) também encontra sua ribalta, numa trama política na qual o simpático labrador deseja concorrer a governador. Essa sub-trama acende um pavio de discussões que vão desde um sensacional debate feminista, até uma implacável sátira à democracia representativa. Quem rouba a cena na temporada é a workaholic Princess Carolyn (Amy Sedaris), que tenta se afogar nos delírios da maternidade para se auto preencher. Vale ressaltar que Todd (Aaron Paul) continua sendo Todd e fazendo coisas de Todd, o que rende os habituais alívios cômicos e pegada nonsense.

Se BoJack não está onipresente como nas últimas temporadas é porque se encontra envolvido numa por vezes exaustiva narrativa familiar. Se seu livro não funcionou, o trabalho não prestou e as drogas já não surtem mais o mesmo efeito, o cavalo se esgueira entre tramoias de um passado caseiro.

São 12 episódios sóbrios, cheios do que a série tem de melhor. Faltou certa ousadia para fazer um episódio como “Fish Out Water” (uma das melhoras coisas que já vi na TV e que é todo passado debaixo d’água e, portanto, quase sem diálogos). Porém, o mais grave é a fadiga quanto à busca incessante por sentido. Todos os personagens já parecem ter tido sua cota de escapismos, e a série parece rodar numa eterna rotunda onde só mudam os ilusórios e nada eternos graais. Vácuos aumentam, precipícios diminuem, todavia as chamas se recusam a parar de pulsar.

Prova viva disso é o segundo e melhor episódio da temporada, “The Old Sugarman Place”, no qual se deixa transparecer todo o niilismo, artificialidade e falta de esperança.

Mesmo com Murakami, sorvete e 4 anos de BoJack, ainda me afogo na angústia de “Stop Crying Your Heart”, só resta torcer para que Noel Gallagher não estivesse mentindo e todas as estrelas que foram embora retornem, assim como um 5º ano com novas respostas e menos sobriedade. Resta saciar-se com a certeza que BoJack Horseman continua uma das mais relevantes, subversivas e ousadas séries de nosso tempo. E isso vai ficar.

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