O diretor Richard Linklater sempre contou histórias sobre a vida. Exemplo disso é a trilogia Before e, mais recentemente, Boyhood. Esse é, com certeza, seu projeto mais ambicioso. Linklater filmou a vida de um menino durante doze anos (dos seis aos dezoito). É incrível ver os atores envelhecendo. E o diretor trata esse tema de uma maneira muito simples. O que para alguns pode ser um defeito, para mim foi o maior mérito. Ao invés de mostrar os “momentos-chave” da vida de Mason (interpretado por EllarColtrane), Linklater expõe momentos cotidianos. Os que realmente contribuíram para a formação da personalidade do menino. Não foi a primeira vez que vimos atores envelhecendo e amadurecendo num filme. Já vimos isso até em grandes blockbuster. O maior exemplo disso é a franquia Harry Potter. Então o que realmente diferencia este longa dos demais é a simplicidade de Linklater no roteiro e na direção.

Seria injusto dizer que os méritos são apenas do diretor. Pois aqui temos um elenco impecável. É verdade que EllarColtrane não dá um show de atuação como protagonista. Mas consegue segurar o filme. Quem realmente está incrível aqui é Patricia Arquette e Ethan Hawke. Os pais de Mason. Você simplesmente esquece que são atores falando. Não é à toa que os dois estão concorrendo ao Oscar de Ator e Atriz Coadjuvantes com grandes chances de ganhar (eu apostaria neles).

O que pode incomodar alguns é a falta de uma curva dramática. O filme não tem começo, meio, clímax e fim.Porém, é preciso encarar o longa como um retrato da vida, do cotidiano. E a vida não é feita de uma curva dramática. Logo, não faz sentido e nem é necessário inserir uma Linklater aqui chega ao ponto máximo da sua carreira. É impressionante como ele mantém uma direção, uma fotografia e uma ideia consistentes durante doze anos de produção. A forma como ele indica a passagem de tempo é perfeita. Não é preciso contar para o expectador que estamos em determinado ano. Descobrimos isso através do avanço da tecnologia e da trilha sonora (que por sinal é excelente). Ele também é um dos favoritos ao Oscar de Melhor Diretor. E, ao meu ver, merecia ganhar este ano.

É sempre bom enfatizar que o mérito de Boyhood não é a forma como foi feito, mas sim o filme em si. Os atores envelhecendo naturalmente é apenas algo a mais. É um filme que, acima de tudo, faz o espectador refletir após ter assistido. E eu sentia falta disso há um bom tempo. Por isso a minha torcida para o Oscar de Melhor Filme vai para Boyhood.

por Bernardo Hippert

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