Capitão Fantástico é um daqueles filmes que tem um impacto avassalador sobre o telespectador no que tange o questionamento da vida em sociedade e, em menor escala, também no emocional de quem o está assistindo. A premissa é a de uma família na qual os pais optaram por criar os filhos longe da sociedade capitalista, numa área habitada exclusivamente por eles e de forma a tudo ser voltado para a subsistência familiar. Depois da morte da mãe, a rotina tranquila da família é abalada pela perda e eles decidem sair de sua bolha para ir ao enterro de sua genitora. A partir daí, é iniciado o choque social nos filhos, que em grande parte nunca haviam sido expostos à sociedade “normal”, como o senso comum esbraveja.

A história carrega como peça chave a simplicidade, da forma mais pura e bela que a palavra pode soar; passa longe da mediocridade ou do raso. A princípio, e acredito que seja até mesmo a intenção de seus realizadores, muitos que assistem a saga da família durante o filme e sua vida pitoresca podem tender a taxá-los de ‘hipongas’ e derivados. Com o desenrolar da trama, começa a ser criado um laço de simpatia pelos personagens e quase que inevitavelmente há uma infiltração de todo o questionamento social, pelos constantes contrastes com todo o resto da sociedade.

Os pais decidiram criar os filhos longe de mentiras, desigualdade, consumismo ou violência gratuita. No entanto, ao chegar a casa de seus primos que são circundados por tudo isso, esse tipo de criação é posta em cheque e questionada – quanto à segurança e educação das crianças, principalmente. Neste momento, o telespectador que já havia confortavelmente tomado partido daquele adorável mundo fora da bolha, tem mais uma vez a dúvida em suas mãos: será mesmo que aquilo havia ido muito longe?

É desafiador descrever uma produção tão cheia de detalhes e costurada minuciosamente dentro da proposta de questionar nosso estilo e qualidade de vida, bem como não ser tomado por um filme que fala de valores, perda, moral, sexo, sinceridade, religião (criticando-a de maneira ácida e com sucesso) e, delicadamente, de amor.

My  face is mine, my hands are mine, my mouth is mine, but I’m not. I’m yours”. No final, essa é uma das mais belas lições que a história nos passa: o quão longe o amor pode ir e que belos frutos acaba por gerar. E que estes frutos são encantadores a ponto de tornar a morte algo não exclusivamente triste, mas de alguma forma aceitável. A tristeza se transforma.

Visceral, gentil e inspirador.

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