A minha concepção de sala de cinema nas férias para ver animação dublada seria algo parecido com o inferno. Para evitar aborrecimentos comprei meu ingresso pela internet e cheguei bem em cima da hora. Para meu espanto, o cinema estava vazio e as poucas crianças presentes durante a sessão fizeram um silêncio sepulcral. Bem que seus pais poderiam ter saído do celular, né?

Com o silêncio reinando na sala, começa Carros 3, que é um filme da Pixar e, como não podia deixar de ser, um curta abriu a sessão. “Lost and Found” foi um dos melhores curta metragens do estúdio. Sou completamente apaixonado por animação (confira o nosso top 10) e pela Pixar quando se trata de 3D, sendo sua área na Disney um dos meus destinos mais aguardados.

No entanto, confesso que não esperava muito dessa obra. O 1º Carros eu achei legalzinho, o 2º não tive coragem de ver e o 3º fui por uma questão profissional, caso contrário não teria visto. Ao assistir ao trailer parecia que eu veria um “Rocky 4”. Um novo lutador/carro super preparado, criado com tecnologia de ponta para ser campeão, contra um lutador/carro consagrado, moldado pela experiência, mas já na descendente.

Tudo Disney, inclusive o Yoda.

Vemos Jack Storm (Armie Hammer) e Relâmpago McQueen (Owen Wilson) num embate nas pistas. McQueen, ao se sentir ultrapassado (figurativa e literalmente), acaba indo além da conta e se envolve num acidente que o tira da corridas por um longo período. A grande expectativa é se ele volta ou não para as pistas na próxima temporada. Cruz Ramirez (Cristela Alonzo) consegue roubar a cena no filme, que parece que foi feito para ela, um treinador que ajuda McQueen a voltar à atividade.

Até certo ponto, o filme tem a dinâmica do “Rocky 4” e pega o gancho da importância da tecnologia no automobilismo (confira nossa lista do gênero) e, até então, a animação se arrastava em tela. De forma bem acertada, o tom do longa muda, abordando mais a questão de se sentir obsoleto por ser de uma outra geração e não compartilhar das práticas e filosofias da atual.

Ivan Drago e Rocky Balboa.

Essa triste e verdadeira realidade bate, inclusive, na minha porta. Faço 35 anos em dezembro (depois mando a caixa postal para envio de presentes) e vejo meus alunos vivendo numa época cujo jovem Ryan Fields gostaria de ter nascido. Tive meus mentores no final dos anos 90/início de 2000 e agora começo a incorporar tal persona. Já dizia Dave Chappelle, “sou de uma época que você tinha que atender o telefone para saber quem tava do outro lado.” Foi interessante ver que a nossa hora sempre passa.

Outro ponto positivo de Carros 3 é a busca pelos seus sonhos. Todo filme infantil se apoia nessa ideia, mas sabemos que nem todos chegarão lá. O diferencial é que nesse filme a não realização dos sonhos não esbarra em obstáculos intransponíveis, mas numa questão de autoestima.

Rocky balboa e Mickey.

Qualquer franquia que chega no seu 3o filme, em raríssimas exceções, está pensando em vender brinquedo e fazer uma tonelada de dinheiro. Não tenho problemas com isso, especialmente se for um filme a nível de “Toy Story 3”. Mas aqui não é o caso. Dói ver a Pixar se prestando ao reaproveitamento de personagens carismáticos sem qualquer preocupação com a qualidade final. Foi assim com Dory, é com Carros 3 e será assim com vários outros filmes que fazem sucesso.

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