CinePigmeu traz, dessa vez, mais uma produção original Netflix. Trata-se de E Pluribus Unum: O Sonho Americano, um curta documentário que fala sobre a tentativa de imigrantes conseguirem a cidadania nos Estados Unidos, em um momento no qual as leis acerca disso são afuniladas pelo presidente Trump (jamais nomeado durante a exibição).

O filme segue duas linhas de posicionamento. Uma delas é definitivamente interessante ao colocar, em paralelo com a História americana (nesse caso, a dos Estados Unidos em nada difere do resto do continente), que este país fora construído em cima de mais e mais imigrantes. Sua origem é a imigração. Não à toa, as comunidades estrangeiras de lá se fazem presentes na medida em que boa parte dos habitantes, ainda que nascidos por aquelas terras, se auto-denomina “ítalo-americano”, “afro-americano”, “nipo-americano”, “irlandês-americano”, “judeu americano”, e toda sorte de “hífen-americanos”. Esta parte narrativa é um belo argumento para conter e problematizar expressões xenófobas em um país confeccionado a partir da vinda de muitos e muitos povos.

O discurso da venezuelana é o mesmo dos demais: “vim para este país, porque aqui existe Liberdade”.

Já o outro momento do filme – que anda junto com o supracitado – é por demais patético, ao tentar pintar o país como a verdadeira terra da Liberdade. Apresentando momentos-chave da História do local, em seu sem-número de lutas por diferentes liberdades e libertações (em especial, a dos escravizados), o discurso da obra de John Hoffman e Nanfu Wang parece tentar fazer um contraponto dos EUA enquanto encarnação da Liberdade versus as atuais ações trumpistas de isolamento em relação ao que é diferente. O problema todo é que o país sempre foi trumpista em convicção e pensamento (não à toa, este discurso foi eleito presidente) e jamais, em momento algum na História do Universo, foi a ilustração da libertação. Todo o bonito viés iluminista presente desde a Declaração de Independência se referia tão somente à elite verdadeiramente interessada naquela separação e não a um projeto universal para sua sociedade.

Os senhores Hoffman e Wang tratam do mais delicado conceito da humanidade, a Liberdade (que, para mim, não há definição absoluta, apenas se relacionado a alguma outra espécie de aprisionamento) e o coloca como a origem máxima desse “fantástico e fantasioso” país chamado Estados Unidos da América. Só em sonho, mesmo. Talvez seja esse o “SONHO americano” ao qual o título em português se refere. Caso eu fosse o tradutor, daria o seguinte nome “E Pluribus Unum: Histórias para Boi Dormir”. Terra da Liberdade? Faz favor!

Disponível em: https://www.netflix.com/br/title/81010212

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