O cinema de ficção, em sua grande e mais lucrativa parte, apela ao público de massa ao permitir a todos nós que simplesmente escapemos da realidade por algumas horas enquanto testemunhamos coisas inacreditáveis como super-heróis, adolescentes interpretados por atores com mais de 30 anos e mundos nos quais o IMC dos personagens só é mais alto do que o estritamente normal quando há alguma intenção de fazer comédia com isso.

A Netflix, apesar de subscrever a este tipo de gênero com várias das bobagens deliciosas que coloca em cartaz, também parece ter um compromisso com aquela mídia cinematográfica que, justamente por fazer o completo oposto de nos permitir escapar da realidade, menos tem apelo ao público em massa: o documentário. Hoje a Netflix tem um catálogo invejável de documentários originais, sejam aqueles que ela mesmo financiou, sejam aqueles feitos de forma independente, exibidos em festivais e que a Netflix compra os direitos para distribuir internacionalmente.

Esta já sedimentada tradição da Netflix já lhe rendeu dois Oscars, um para o longa Ícaro este ano (indicado em nosso Garimpo Netflix: Esportes) e outro para o curta Capacetes Brancos (indicado em um CinePigmeu) no ano passado, isso sem contar as séries documentais como Making a Murderer (analisada em nosso Assista!) e a controversa Wild Wild Country
(também resenhada por nós).

Na mesma linha, hoje estreia o curta-documentário de 40 minutos, A Partida Final, uma obra que fala sobre a inevitabilidade da morte, a relação que todos nós precisamos criar com ela e da dor que todos sentimos ao não só ver uma pessoa que amamos partir, mas, principalmente, ao vê-la entrevada numa cama lutando uma batalha cujo resultado sequer se discute.

A dor de quem fica.

Todos nós já perdemos vários dos nossos entes queridos ao longo da vida e perderemos muito mais até o final das nossas. O que o curta de Rob Epstein e Jeffrey Friedman passa, com um roteiro muito bem azeitado e direção firme, é justamente a certeza de que a sensação que todos sentimos quando perdemos alguém que amamos são compartilhadas por todos, com foco quase cruel em situações de doentes terminais, que sabem que vão morrer (todas a pessoas retratadas de fato morreram), e no dia-a-dia de seus tratamentos, de suas famílias lidando com a sensação de impotência de enxergar quem se ama definhando diante de si, sem deixar de exaltar as extraordinárias pessoas que dedicam suas vidas a dar algum conforto ao próximo em situação tão terminal e definitiva.

A Partida Final me fez chorar praticamente o tempo todo diante da certeza de que para morrer, basta estar vivo. E isto me apavora não porque eu temo a morte, mas porque tenho verdadeiro pavor da morte daqueles que amo e, principalmente, do seu sofrimento até a libertação final do abraço da morte.

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