O mormaço, almoço que demorava para sair, televisão sempre quebrada, micos bamboleando nos fios me impedindo de assistir. Os fins de manhã, inícios de tarde no Jardim Botânico são sempre iguais. Mas para mim contavam com um elemento a mais, naqueles dias de aurora da minha vida, havia sempre os jogos da Roma na espera do almoço. Geralmente significavam frustração absoluta, com um tropeço inexplicável para o Verona, Cesena ou Siena. Porém não havia importância, os 90 minutos em que meus olhos atentos acompanhavam sua silhueta inumana, valiam qualquer sentimento amargo que inundava minha garganta após o apito final.

Você é para mim muito mais que um ídolo, é uma referência. Desde o momento que minha mãe chegou com uma camisa negra, com um 10 nas costas e o estranho nome italiano grafado, até esse fatídico dia 28 de maio, és parte de mim, do que sou e do que serei. Nasci num século inundado por jogadores fisgados pela modernidade, que largam seus países, clubes do coração, por dinheiro ou glórias ilusórias. Quem sou eu para reclamar? Tupiniquim torcedor do FC Barcelona. Mesmo assim sempre me senti no direito de admirar a rugosidade temporal que você era e sempre será.

Nascido e criado na curva sud (torcida organizada da Roma), mais do que campeão mundial, vencedor da chuteira de ouro, és romanista do berçário até o caixão. Recusou Real Madrid e Liverpool por uma equipe que tem em seu currículo 3 campeonatos italianos. Porém diferente de todas por ser sua equipe, sua Roma. E pouco a pouco, na medida em que doava sua carne, sua vida foi se transformando, se fundindo as cores giallorossi, até que sua face, seu corpo, sua alma e a massa do Estádio Olímpico se tornaram indistinguíveis.

Quando era moleque não tirava aquela camisa, ia para escola, ao cinema, sempre que podia estava com ela. Naquela época de desgraça, onde me escondia atrás das tubulações de ar, sua raça, alma e espírito que deixava na grama e no grito eram para mim fonte de esperança, de um dia poder ser igual a você, gladiador das batalhas impossíveis.

Quando saí daquela escola de abismos e vazios, precisava me reinventar. Thomaz já não me era suficiente, nome intransigente que não mais conseguia me habitar. E quando aqueles novos colegas começaram a salivar, para fazer a pergunta chave de toda interação social, eu já sabia o que falar:

-Pode me chamar de Thotti.

E assim faço até hoje.

Não importa onde, quando ou com quem, quero ser Francesco Totti, ter sua honra, lealdade e capacidade de doar cada milimetro de seu corpo para sua paixão. A capacidade de dizer foda-se bola de ouro e UEFA Champions League, porque com seu amor e dignidade você não só venceu a Lazio, Juventus ou Milan, mas sim a modernidade, de homens e mulheres sem alma que escolhem caminhos fáceis e atalhos tão curtos quanto vazios.

Meu pai costumava dizer “escolha o caminho mais fácil”, “não precisa fazer tudo tão difícil para você” se alguém me deixa discordar de meu criador, é a sua 10, eterno 10 de uma cidade eterna, que tem agora mais uma lenda em seu panteão.

Por isso trazemos para cá no CinePigmeu um pequeno filme, de apenas 2 minutos, mas que diz muito sobre sua lenda que tanto me inspira e continuará a me inspirar em cada momento, decisão ou desilusão.

Hoje, nesse dia 28 de maio, de névoas tão cinzas e lua tão clara, meu peito mal suporta a dor, naif entretanto genuína perda de não apenas ídolo nos gramados, mas sim um exemplo, que me ajudou a me reinventar, me fez companhia enquanto o almoço não chegava e por fim me mostrou que, sim, é possível resistir, não se deixar seduzir por prazeres e caminhos de glórias tão fáceis quanto desalmados. Fica a alegria de ter lhe visto jogar, fica a agonia de acordar agora com a certeza que não mais poderei vê-lo com a braçadeira, com o 10 nas costas e aquele estranho nome grafado que sempre vai me inspirar. Resta lamentar pelos jogos em que esqueci de ligar a televisão, resta lamentar o tempo. Maldito tempo que tudo leva e deixa apenas os fins de manhã, inícios de tarde do Jardim Botânico intactos.

De Thotti para Totti, só posso dizer, muito obrigado.

Já não me cabe, mas estará sempre aqui

(Por Thotti Cardoso)

Carrego meu nome com absoluto orgulho. Vettori. Minha família italiana que me passou o que de mais precioso posso carregar: o líquido que corre dentro de mim, não apenas vermelho, mas também verde e branco. Posso ter nascido em solo brasileiro, mas isso não me faz um daqui. Não. A minha educação, a minha identificação e, sobretudo, meu exacerbado nacionalismo é direcionado para a minha origem: Italia.

Sempre acompanhei a Nazionale com extrema paixão, arranjando brigas e discussões com amigos que, insistentes, zombavam as constantes eliminações nas Copas (muitas vezes, precoces). Eu tinha um ídolo na infância. Chamava-se Roberto Baggio. Em 2002, porém, lembro da estréia da Squadra Azzura contra o Equador, naquela Copa. Entrava no gramado um cabeludo, de chuteiras brancas, identificado pelo narrador Cleber Machado como “o ídolo da Itália”, ou algo que o valha, “o substituto de Baggio”. Na hora pensei “Baggio é insubstituível”. Não conhecia Francesco. Ainda não conhecia o tamanho da heresia que eu havia cometido. Quinze minutos – e quinze minutos apenas – foram suficientes para eu me apaixonar eternamente por aquele que é e sempre será o maior de todos os tempos! Totti. Passaria a ser o nome que eu mais falaria na minha vida. Por isso, alguns familiares chegavam a me chamar de Totti. Honra absoluta! Por isso, hoje, minha sobrinha de cinco anos fica repetindo pela casa “Totti! Totti! Totti!”.

Na ausência de um time de expressão da região de onde vem minha família, Treviso, não tive dúvidas acerca de qual time torcer. AS Roma. Por Totti e pela Itália. A cidade de onde tudo se originou. O coração do antigo e maravilhoso Império. De Júlio César a Francesco Totti. Italia s’è desta!

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Tornei-me um romanista obcecado. São 15 anos acompanhando aquele que se tornou o meu maior ídolo de todos os tempos! Aquele que me deu a maior felicidade dentro dos gramados: o tetracampeonato de 2006. Em um momento que os zombeteiros me cornetavam “Totti não jogará a Copa. Três meses da estréia e ele se machucou feio. São, no mínimo, 5 meses de recuperação”, declarou um amigo fisioterapeuta. Mas não estamos falando de um homem comum. Não estamos falando de mim ou de você, ou deles. Estamos falando do Re di Roma! Do melhor jogador de todos os tempos! Er Capitano! Totti se recuperara, jogara a Copa e vencera. Ele veio, viu e venceu!

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Meus domingos serão diferentes. Como ele mesmo disse, a alegria não virá mais de seus pés. E a alegria só pode ser plena através deles. Mas Totti é Imortal. E sua grandiosidade está para sempre marcada em nossa alma. O maldito tempo que o fez “se tornar um adulto” e sair dos gramados me fez chorar este dia 28 de maio inteiro. Ainda me faz chorar enquanto escrevo essas palavras – e enquanto lia as acima, do meu amigo e companheiro romanista Thotti.

Mas esse maldito tempo JAMAIS será capaz de apagar da História as conquistas de um romano, de um italiano, de um filho da loba. Francesco moldou quem eu sou, o que penso da vida. Mostrou-me que mais vale sua convicção inabalável do que qualquer prazer momentâneo. Ensinou-me o que é belo e o que é fantástico. Evidenciou-me que a casa é o nosso lugar e que jamais devemos deixá-la. Deu-me a oportunidade de conviver com sua genialidade única. De sonhar acordado um sonho real. Inesquecível, incomparável, inimitável! Francesco Totti! Unico Grande Amore! Grazie Francesco, che ci fai piangere e abbracciarci ancora. Grazie Francesco, che ci fai vivere e sentire ancora una persona nuova! Ti amo!

(por Rene Michel Vettori)

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