Altemar Dutra, o Rei do Bolero, já teve seus dias de glória, na longínqua década de 70. E são desses dias que o diretor Erico Rassi pinçou seus grandes sucessos para sutil, porém escancaradamente, ilustrar a sua estreia na direção com este Comeback: Um Matador Nunca se Aposenta.

A canção escolhida para a cena inicial do longa é “O Fim”, na qual Altemar Dutra canta as agruras do amor perdido, situando o espectador atento a exatamente o que se passa na cabeça daquele senhorzinho curvado, magro, de chapéu, sentado ao fundo de uma birosca na periferia da cidade goiana de Anápolis ouvindo aquela melancolia e cotejando-a com a sua própria.

O tal senhorzinho é Amador (Nelson Xavier), um ex pistoleiro e matador de muita fama na região, mas que hoje vive amargurado, remoendo o passado que ele entende como glorioso e ganhando a vida como capanga de uma espécie de “dono”, conhecido por Tio (Gê Martu), da periferia onde ele mora, trabalhando com a instalação de maquininhas caça níquel em vários pontos da quebrada.

Acontece que Amador está cansado desta merda. Assim como o amor de Altemar Dutra, o seu amor também se foi e ele tem uma saudade agonizante. O amor de Amador, contudo, não é uma mulher, não é o amor romântico, mas, sim, é aquilo que ele encontra na ponta de sua pistola carinhosamente apelidada de Amadinha.

Evocando clássicos do faroeste e até mesmo a essência do cinema de Darren Aronofsky, Amador é um sujeito que está cansado de tentar ser uma pessoa que ele não é, está farto de viver no presente inglório quando seu passado foi, a seu próprio e distorcido ver, tão rico em conquistas. E é a chegada de um rapaz (Marcos de Andrade) que o idolatra e vê como mestre que faz renascer a velha chama da ambição,  daí a sua vontade de fazer o “comeback”, de voltar a fazer seu nome como matador e autor de chacinas das quais ele orgulha imensamente.

Vivido de maneira brilhantemente contida por Nelson Xavier, em seu último papel no cinema antes de sua morte duas semanas atrás, Amador é um agente da mudança – a mudança que vem na base da bala – e o marasmo que sua vida se tornou com a vinda daquilo que o Tio proclama como progresso lhe é um acinte, uma ofensa que vem se repetindo já há muito tempo.

Dirigindo uma Parati 92, armado com uma pistola que quase não funciona (e que é protagonista de uma cena excelentemente escrita em que ela falha), meio cego de um olho e tirando cochilos instantâneos em lugares improváveis, Amador é uma bomba relógio e um homem com o corpo fechado pelas memórias que carrega.

O longa apresenta uma ambientação que repete um pouco a estética da pobreza tão comum no Cinema nacional, mas o faz em uma locação diferente do comum dos grandes centros urbanos ou dos sertão nordestino, o que é salutar e serve para complementar a narrativa, situando o espectador em um mundo que parece parado no tempo, pelo menos aos olhos de Amador.

Apesar de apresentar alguns problemas de ritmo e um elenco de apoio que, em sua maioria, não acompanha o mesmo nível de Nelson Xavier (que foi inclusive premiado como melhor ator no Festival do Rio do ano passado), Comeback é um excelente filme, diferente do que se vê hodiernamente na produção nacional, com um protagonista improvável e uma estética intencional e verdadeiramente suja.

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