“O Contrato de Relacionamentos Amorosos prevê, no artigo ‘ADAPTAÇÃO FAMILIAR’ cláusula 2ª, a possibilidade de nervosismo, violência e até perda de interesse no primeiro contato com a família do parceiro.”

Desburocratizando esse fidedigno documento inventado por mim, acredito ser parte do senso comum considerar conhecer a família do amado(a) motivo de ansiedade, insegurança e, sim, passível de dar merda. (A título de curiosidade, pra minha sorte tenho um histórico excelente quanto a isso – beijo pra todas as minhas ex-sogras por aí <3). Corra! está ciente disso e injeta no cerne de sua história a premissa deste primeiro encontro familiar. Temos Chris (Daniel Kaluuya) caidinho pela nova namorada Rose (Allison Williams), que propõe que o rapaz vá Aonde o Vento Faz a Curva, cidade que residem seus pais. Dispenso dizer que, configurando o suspense todo, tem alguma coisa de errado na tal família e o maluco vai descobrir da pior maneira possível…

Chris a caminho de conhecer aquele tio do “é pra ver ou pra comer?” e a tia boca suja pra caralho sem papas na língua. Ele tá rindo, mas é de nervoso.

Partindo dessa premissa clichê, o filme poderia ter sido um qualquer um: pescado elementos tradicionais do terror (como sequestro, problema familiar e lugar afastado da cidade) e criado algo padrão e esperado. Contudo, seguindo uma releitura pós-moderna, insere a problemática do racismo em sua essência. Ainda que pareça batida ou óbvia, a ideia de colocar um sutil debate acerca do assunto é bem bolada. No geral são os dramas, documentários, romances e demais gêneros em que a temática é peça chave. Inseri-la no terror é inusitado e, se bem desenvolvido, genial. E é a partir daí que o longa decola, estável, sarcástico e inteligente.

Chris é negro e, como sabemos, a questão racial nos EUA tem raízes tão profundas que reverberam em muito ainda hoje. Em especial quando se trata de áreas de interior, predominadas pela elite branca (pode soar até redundante…) de um Estado com histórico escravocrata. Apesar da história não especificar em qual parte se passa, o meu imaginário me redirecionou para terras sulistas do país, ex-colônias de exploração. Ainda que não escancare também este estereótipo, sendo brilhante por justamente inserir personagens comuns, liberais e de classe média.

Diante desse contexto, o rapaz fica especialmente nervoso com a aproximação do encontro com a família da namorada, que é branca e vive numa área nobre – em muito levado pelo esperado e ainda comum preconceito nessas situações. No entanto, para sua surpresa, seus sogros não só não são racistas como até convivem com negros e os tratam como família…têm até amigos negros…

Cena interessante para análise do contraste de roupas, estilo e realidades. Torna-se visível o muro entre os dois, assim como a impressão de que a mulher “tem” um negro, como quem coleciona bibelôs.

A partir daí o longa escarra cenas banais de racismo estrutural – ou seja, quando ele está enraizado em interações sociais, culturais e carrega estereótipos que, por serem tão naturalizados, podem passar despercebidos. Diversas vezes somos direcionados à auto reflexão, produto de frases que arranham nossos ouvidos apesar de aparentemente serem bem intencionadas. Vindas das “pessoas de bem”. É fantástico o desconforto que transmite diretamente da tela quando sem querer essas pessoas que bradam igualdade insistem em inserir a cor da pele na roda da conversa, silenciosamente estabelecendo-a como uma barreira.

O grande problema todo para Chris não é esse bando de babaca falando merda. Isso ele já esperava. A coisa começa a ficar tensa quando ele vê um comportamento estranho exclusivamente nos negros da casa – empregados, em maioria. Como se eles não possuíssem vida, voz, vontades. Como se tivesse, a todo tempo, que seguir um script. Soa familiar…

Por fim, o filme tem uma excelente mensagem em seu desfecho, reafirmando que o racismo pode ser pseudo-silencioso e bem maquiado mas que está ali, coçando atrás da orelha. Não é impressão; você não entendeu errado; não é coincidência. E, uma vez que Chris toma consciência totalmente disso, ele tem a chance de correr e sair dali.

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