Sentar para ver um filme e começar a presenciar uma história que, após vários minutos, se mostra, na realidade, uma outra coisa parece ser algo que já aconteceu há anos, décadas. Trata-se de “Psicose” de Alfred Hitchcock, quando, após famosa cena, descobrimos que a história não se trata sobre “ela”, mas sobre “ele”. Semelhante a este genial recurso de roteiro, em “Garota Exemplar” (Gone Girl) estamos de cara para um tipo de filme que, aos poucos, se revela outro. Somos levados a um tornado de situações que parecem, cada vez mais, afogar o personagem principal Nick (Ben Affleck), que, por vezes, relembra um pouco o bom e velho Hamlet, devido à sua falta de ação para solucionar os problemas que surgem, imponentes.

Porém, diferente do dinamarquês, Nick parece ser bastante banal e comum. Só mais um no meio da multidão. Aquela pessoa trivial que comete erros atrás de erros. Ele é o principal suspeito pelo desaparecimento de sua mulher Amy Dunne (Rosamund Pike) e ao tentar provar sua inocência, apenas se enrola mais e mais em uma teia de mentiras e atuações dignas de um canastrão. Aliás, podemos lançar uma série de palmas à atuação de Ben Affleck. Ouso dizer, a melhor de sua carreira. Talvez porque Nick seja Ben Affleck – isto é, O verdadeiro canastrão. Aqui, lembramos da brilhante frase de Murnau, no filme “A Sombra do Vampiro”, quando, falando sobre não-atores que deveriam atuar em seu “Nosferatu”, diz “eles não precisam atuar; eles precisam ser”. Ben Affleck foi Nick. Ou melhor, ele é. David Fincher realiza uma direção primorosa e muito forte, mantendo um tom constante durante todo o filme.

Um clima frio, sussurrado, no qual os fatos se desenvolvem – muitas vezes de maneira forte – mantendo sempre uma sensação de incertezas e desconforto. A partir de uma história que se apresenta meramente investigativa – o que não é, unicamente – Fincher nos coloca de frente para a fragilidade das relações pessoais e como elas são construídas em cima de alicerces pouco fundamentados. Mais profundo do que isso, revela o baile de máscaras que é o convívio em sociedade; um verdadeiro carnaval veneziano no qual a pompa sempre se apresenta tão mais importante do que o conteúdo; do que o real que, definitivamente, se esconde atrás das ricas fantasias em um baile de bizarrices.

À um olhar mais cético, vemos ali na representação das relações sociais o velho ensinamento de Maquiavel – o importante não é ser, mas parecer ser. Nick e Dunne não são, apenas aparentam. Fincher não poupa, ainda, a mídia e suas infinitas construções e desconstruções. A manipulação das notícias e de informações para a criação de monstros e heróis; para a reprodução de dias de ódio – como gostaria Geroge Orwell – ou dias de amor(es); o uso indiscriminado da vida de outrem para o propósito único de ter em seu programa o centro das atenções.
“Garota Exemplar” é um filme com roupagem de suspense investigativo, porém muito mais profundo do que isso. É a revelação do show de horrores escondidos pelo véu sutil da construção social, a partir da relação de um casal. É a leitura da sociedade atual a partir de uma releitura da frase de Murnau supracitada: Nick e Dunne não precisam ser; eles precisam atuar.

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