Em 24 de janeiro de 2017, La La Land – Cantando Estações  recebeu 14 indicações ao Oscar, colocando-o no mesmo panteão onde antes residiam apenas  A Malvada, de 1950 e  Titanic, de 1997, como os filmes com o maior número de indicações da história. Das 14 indicações, La La Land sagrou-se vencedor de apenas 6, com destaque absoluto para seu diretor, Damien Chazelle, o mais jovem diretor a ganhar um Oscar, batendo uma marca que persistia desde 1931.

É em função da consagração de Damien Chazelle pela Academia que apresentamos o Assista! de hoje. Não sobre La La Land que, apesar de ser um bom filme, me parece um tanto superestimado e já foi até mesmo alvo do nosso primeiro Movie Battle, mas sobre Whiplash: Em Busca da Perfeição, a verdadeira obra prima desse diretor que ainda cheira a talco, toma Sustagen e que, torçamos, ainda nos presenteará com tantas outras.

Após fazer um longa de conclusão do curso de cinema totalmente independente chamado Guy and Madeline on a Park Bench (que dizem ser um ensaio do que viria a ser La La Land) e um curta intitulado Whiplash, algum iluminado resolveu aprovar um orçamento de 3 milhões de dólares para que Chazelle transformasse aquele curta em um filme inteiro. Daí, ainda com 29 anos e com o rabo virado para a lua no que se refere à escolha de elenco, nasce o filme indicado de hoje.

“If you deliberately sabotage my band, I will fuck you like a pig.”

Chazelle escalou para os papéis principais dois atores relativamente conhecidos, mas sem grande prestígio. Miles Teller, que havia feito comédias adolescentes meio merda, e J.K. Simmons, conhecido pelo público em geral como o JJ Jameson da primeira série de filmes do Homem Aranha e também como “aquele cara daquele filme”, o eterno coadjuvante cujo nome ninguém lembra, mas cujo rosto sempre é familiar.

No filme anterior de Teller, a comédia romântica semi adolescente Namoro ou Liberdade (a fabulosa tradução de That Awkward Moment no original),  ele interpretava um cara engraçaralho cujo objetivo de vida é basicamente comer todo mundo e andar por aí com seus amigos fodelões. Após comerem todas as figurantes do filme, todos aprendem uma valiosa lição sobre a vida e o amor.

Porque caralhos estou falando deste filme em uma indicação de Whiplash? Ou talvez mais relevante seja a pergunta de porque caralhos eu estava assistindo a uma comédia romântica atroz (nem tanto) como essa. A resposta é Miles Teller. Eu só fui assistir a Namoro ou Liberdade (que está liberado no Netflix, a propósito) por causa da performance que eu vi em Whiplash. E esse filme só é relevante a Whiplash porque o personagem de Teller é uma mistura de todos os personagens boquirrotos de Jonah Hill com o Chandler de Friends. É um sujeito engraçado, descolado e seguro de si. É, em suma, um contraponto total ao que é seu personagem em Whiplash. E é somente provocando um cotejo entre sua atuação em Namoro ou Liberdade e em Whiplash que se percebe a profundidade de sua atuação.

Miles Teller amaldiçoando o dia que assinou contrato para estrelar a franquia Divergente e Quarteto Fantástico.

Em Whiplash, Andrew Neiman (Teller) é um jovem calouro no renomado conservatório de música Shaffer, onde toca bateria e, por demonstrar uma nesga de obstinação, chama a atenção do lendário professor Terence Fletcher (Simmons), que é o condutor e força motriz daquela que é a melhor big band amadora de jazz do país. Então começa uma relação de aluno/professor extremamente deturpada e abusiva. Andrew se mostra um personagem de nuances fortes e delineadas, sendo ao mesmo tempo soberbo e tímido, introvertido e arrogante. E Miles Teller está brilhante em seu retrato de Andrew, em total contraponto ao que havia feito em Namoro ou Liberdade. Aqui vemos um ator de talento nato, que desenvolve e amadurece o personagem na mesma medida que o faz enquanto ator.

Em determinada cena, Neimam, imbuído de um espírito de confiança paradoxalmente dado pelos abusos perpetrados por Fletcher, termina com sua namorada (interpretada por Melissa Benoist, a Supergirl) de forma cruelmente indiferente, como se ela fosse um obstáculo em seu objetivo de se tornar o próximo Buddy Rich (um puta baterista de jazz já falecido), somente para, na cena seguinte, choramingar feito uma criança diante da barragem de impropérios despejada por Fletcher.

E, por falar em Fletcher, ainda que esta crítica até o momento tenha sido uma completa pagação de pau à interpretação de Miles Teller, posto que brilhante, esta empalidece quando colocada ao lado do que Simmons traz ao filme. É uma interpretação que, superficialmente, pode até parecer um tanto unidimensional em função da evidente obstinação daquele sujeito, que parece tomar-lhe de tal forma que não sobra espaço para qualquer outra coisa. Felizmente, basta olhar nos olhos e nas linhas do rosto do ator para entender as diversas camadas de quem é e o que busca Terence Fletcher. Ele não se importa com absolutamente mais nada além da música. Seu amor à música e a quem a produz é palpável, incondicional e se traduz em suas ações, de certa forma justificando-as.

Não interessa a Fletcher os sentimentos das pessoas e tampouco os seus próprios. Se for necessário destruir a vida de um gordinho desgraçado inseguro demais para saber se seu instrumento estava afinado ou não, então que seja. Ele assim o fará em busca do seu objetivo que, em função do excelentemente adaptado roteiro, nunca se tem exata certeza de qual é.

Repare o perdigoto voando.

JK Simmons, que veio a ser muito justamente premiado com o Oscar de melhor ator coadjuvante por sua performance, é uma força da natureza, um personagem maior que a própria vida e que tem na parceria com Miles Teller enquanto ator o exato reflexo da parceria entre seus dois personagens. A generosidade é a chave aqui. Teller só pode demonstrar as nuances de sua interpretação porque JK Simmons o desafia a tanto, exatamente como acontece na relação entre os personagens. Dizer mais do que isso quanto a esta relação seria dar spoiler do filme, mas, ao final da magistral cena final do filme, esta analogia se tornará perfeitamente clara a todos aqueles que a virem.

“Not quite my tempo, you fucking kike punk ass mother fucker!”

No mais, a corretíssima direção de Damian Chazelle é ajudada em muito pelo seu próprio roteiro e, mais ainda, pela edição do filme, que é, segundo diria meu amigo e entendedor Renê Vettori, uma aula de cinema. Tom Cross, apesar de só ter editado filme de terror merda até então, foi também muito justamente agraciado com o Oscar de edição por seu verdadeiramente magistral trabalho de edição.

Todos estes elementos – atuação de Simmons e Teller, direção, roteiro e, especialmente, edição – estão perfeitamente exemplificados pela nada menos do que perfeita cena final do filme. Esses são, e hoje eu posso falar sem sombra de dúvida, os melhores 15 minutos ininterruptos de cena que eu vi pelo menos nos últimos 10 anos. Cada tomada, cada pancada, cada olhar de cada um dos personagens conta uma história sem palavras, prendendo o espectador em seu assento, de tal maneira que, ao terminar, eu não me lembrava de ter respirado ou exercido qualquer outra função vital. A imagem e a música contam tudo que precisamos saber e mais.

Quando o filme saiu em 2014, Vlamir Marques, grande amigo meu e do Renê, escreveu uma resenha extremamente pessoal sobre o filme e LOTADA de spoilers. Leiam AQUI por sua conta e risco, mas com a certeza de que se trata de um relato tão brilhante quanto o filme.

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