No dia 7 de Janeiro de 2015 eu e minha esposa passeávamos pelo Portão de Brandemburgo em Berlim quando repentinamente o local se encheu de policiais que se movimentavam entre os pedestres e levantavam barreiras nos acessos. Dava para sentir que algo não estava certo e resolvemos voltar para o hotel. Ao ligarmos a tv descobrimos o motivo de tudo aquilo. Vimos o desenvolver do atentado terrorista à sede do jornal Charlie Hebdo em Paris, que custou 12 vidas, cidade na qual estávamos 2 dias antes e à qual retornaríamos algumas semanas depois para voltar ao Rio de Janeiro. Acompanhamos toda a comoção e passeatas contra esse ato grotesco por algumas cidades europeias e, em especial, a própria Paris, que já não parecia a mesma cidade que há pouco visitáramos.

Desde esse dia, a França sofreu diversos ataques terroristas, resultando num total de 200 vidas perdidas. De todos esses atos hediondos, o mais chocante ocorreu 10 meses após ao do Charlie Hebdo, no dia 13 de Novembro daquele ano, ceifando 130 almas em uma noite que figura entre uma das mais infames da história moderna francesa. Caso você nunca tenha ido à Paris, saiba que é uma das cidades mais cosmopolitas do mundo, abrigando uma variedade de povos e culturas em ruas e edificações que concentram boa parte da história da humanidade. Mais importante ainda é ver que a França se agarra muito à sua laicidade, com judeus, cristãos e muçulmanos exercendo suas crenças livremente e sem constrangimento. Basta ver a sua seleção de futebol que disputará a Copa do Mundo para entender o que digo. Mais da metade é imigrante ou descendente de um, especialmente das suas ex-colônias africanas.

Amistoso entre França e Alemanha.

Na noite de 13 de Novembro, o Estado Islâmico em colaboração com células terroristas francesas, em retaliação ao papel da França na intervenção militar na Síria e no Iraque, realiza uma série de atentados no curto espaço de algumas horas em Paris, transformando uma noite de festas em um filme de horror. Com base nos relatos dos sobreviventes e envolvidos no auxílio às vitimas, a NETFLIX libera em seu catálogo o documentário serial com 3 episódios, 13 de Novembro – Terror em Paris. Antes de prosseguir, é importante ressaltar que a proposta do documentário é apenas de contar os eventos do ponto de vista de quem passou por essa experiência traumática, sem qualquer análise dos fatos. Não é discutido quem ou por que esses atentados foram feitos, então caso você seja aquele espectador que precisa de um final catártico, essa não é uma obra para sua apreciação.

Em uma sexta-feita à noite, pessoas comuns se divertiam em restaurantes com seus familiares e amigos, assistindo ao amistoso entre França e Alemanha no Stade de France (com 80 mil pessoas in loco) e num show de rock em uma casa noturna (lotada com 1200 pessoas) quando foram alvos de homens-bomba e fuzilamentos. Para entendermos o desespero dessas situações, cada um dos ataques é apresentado com a descrição dos requintes de crueldade que chocam e passam uma sensação de impotência e raiva, enquanto somos conduzidos por cada cenário cronologicamente. A sensação que tive ao assistir foi a de estar na Divina Comédia de Dante, indo por cada círculo do inferno e sendo apresentado às atrocidades que pioravam conforme prosseguia a série. Os ataques aos estabelecimentos em torno ao estádio servindo como prelúdio do que seria a noite, seguido pelo ataque aos bares/restaurantes com os amigos e família e chegando a uma das situações mais macabras dentro de uma casa de show, faz de 13 de Novembro – Terror em Paris uma obra visceral e emocionante, como há algum tempo não via.

A intensidade dos relatos, a brutalidade dos ataques, as fortíssimas imagens de câmeras de segurança e celulares são costuradas em uma edição magnífica, que dão um ritmo de urgência durante suas quase 2h40min (juntando os 3 episódios) e fica quase impossível não “maratonar” a série, o que recomendo que se faça sem crianças por perto, devido à natureza do material. Mesmo vivendo em uma cidade que por si só é um atentado à vida diariamente, fazendo-me abandonar meu carro em arrastão na linha vermelha mais de uma vez e em outras situações deitar no chão do carro enquanto balas traçantes cortavam o céu (e isso tudo porque eu não me considero azarado em face do que costumo ouvir falar pela cidade), era estarrecedor ver o nível de civismo do cidadão francês que, ao ligar para emergência após presenciar um massacre, dá boa noite ao atendente e pede desculpas por incomodar. E ainda com declarações com eventos que aos olhos da população brasileira possam parecer corriqueiros, como “não dá para imaginar que estão disparando uma arma na frente da sua casa”, você ainda é capaz de compadecer da dor e do genuíno trauma que eles passaram.

13 de Novembro – Terror em Paris é um exemplo perfeito que um documentário não precisa ser uma análise ou discutir a sociedade, o fato em si já basta. A NETFLIX acerta mais uma vez e continua provando sua competência em fazer documentários seriais. Encerro com o vídeo abaixo dos integrantes da banda Eagles of Death Metal, que faziam um show quando inciou o último e mais devastador ataque nessa noite (com 89 mortes), dando seus depoimentos e opiniões sobre os atentados (infelizmente eles não aparecem no documentário).

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