Bryce Walker (Justin Prentice) está morto. E nem é spoiler, já que, numa ousada jogada, a Netflix resolveu lançar a bomba já no trailer da 3ª temporada da sua polêmica 13 Reasons Why. Ousada e inteligente jogada, diga-se de passagem. Matar a personagem mais odiada do drama teen trouxe um hype para uma série que sofreu com uma segunda temporada bem fraca e uma fileira de estocadas nada positivas de profissionais de saúde que a acusaram de ter efeito nocivo na questão do suicídio na adolescência.

No entanto, se a morte do estuprador do Colégio Liberty era uma promessa de uma lufada de ar fresco, os caminhos narrativos abertos por ela foram bem decepcionantes. Embora levemente superior à anterior, esta temporada não foi, no geral, lá essas coisas. Como eles são teimosos, já há a promessa de um quarto ciclo. Oremos e esperemos (sem muita esperança). Mas, falemos agora dos 13 novos episódios que uma galera já maratonou.

A segunda temporada nos deixou no vácuo do que iria acontecer após o bom-moço Clay (Dylan Minnette) conseguir demover o traumatizado Tyler (Devin Druid) de executar um massacre estudantil. A nova começa trazendo uma nova aluna, Ani Achola (Grace Saif), que, no que saberemos depois tratar-se de um depoimento à polícia, servirá de narradora da temporada, interesse amoroso do protagonista, onipresença (com todas as forçações de barra e deus ex-machina imagináveis) em todas as situações da temporada, envolvimento pra lá de questionável com o futuro defunto Walker e detentora de sotaque. Ah, de quebra, a moça tem o carisma de uma xícara de água morna. Mas, é o que temos para hoje e, na já esperada linha temporal cruzada da série, será essa a voz-guia.

A categoria das coisas que deram certo na temporada começa com a escolha acertada de se investir num plot twist, ainda que tenha sido o bom e velho “quem matou”. A série precisava disso, uma sacudida. Joinha. A edição continua bonitona de ver, dinâmica, os cortes são magistralmente executados. Outro joinha. O elenco jovem segura bem o rojão e as interpretações ficaram notadamente mais seguras. A fotografia deixou uma sensação mista. Algumas cenas exibiam escolhas bem arrojadas, enquanto outras foram o puro suco da breguice (um funeral em sépia, sério? Que original).

Também é notável como a produção, nas três levas, se mostra antenada com questões do nosso tempo. Se, em alguns momentos, a execução realmente é falha, não dá para negar que a série pensa o contemporâneo. Nesta temporada ganham força assuntos como tráfico de esteroides, a dura reconstrução da vida afetivo-sexual de vítimas de abuso, ativismo e até mesmo a questionável política de deportação de Trump.

Mas, no geral, as más escolhas sobressaíram. Começando por uma falha grave no roteiro que fez com, sem exagero, pelos menos 4 dos 13 episódios fossem notadamente uma completa encheção de linguiça. Nada acontecia e episódios de mais de 40 minutos poderiam ter sido reduzidos a algumas cenas de 5.

A tentativa de fazer com que cada uma das personagens fosse suspeita do assassinato também não deu certo. Algumas foram de um efeito WTF sem precedentes, numa forçação de barra que diminui até mesmo o impacto – que já não era lá tão impactante assim – da revelação do verdadeiro assassino. Também não soou muito bem o lugar comum de tentar se explicar a extrema violência homofóbica de uma personagem retratando-a como um provável homossexual reprimido. Violência nunca é uma planta de raiz única e reduzi-la não ajuda no debate.

O grande buraco negro na temporada, porém, foi o que fizeram com Bryce Walker. Na tentativa de se alocar mais camadas à personagem, investiu-se numa “humanização” que, longe de soar verossímil, tocava no ofensivo por várias vezes. Apesar das boas habilidades cênicas de Justin Prentice, a sensação que o espectador teve era a de que, por vezes, ele estava fazendo uma personagem nova e não o estuprador rico e mimado que, por duas temporadas, não exibiu nenhum remorso pelo que fez a todas as suas vítimas. Pegaram pesado na brincadeira de redenção. Só esqueceram de avisar aos roteiristas que aquilo tinha que fazer sentido.

Agora é torcer para que a quarta temporada consiga nos dar pelo menos 1 motivo para continuar assistindo. A gente abre mão dos outros 12.

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