Há exatos vinte anos, este crítico era um pós-adolescente começando uma vida nos próprios termos. Sentado em um cinema, eu experimentei a angústia de ver na tela a vida que eu não queria e, mais ainda, a vida que eu temia que a minha se tornasse. O filme era “Beleza Americana” e eu nunca esquecerei das coisas que ele me fez sentir. Doze anos atrás, este crítico era um jovem adulto, casado há dois anos, e, sentado em uma sala de cinema, um filme me fez, de novo, sentir algo profundo. Nas cenas de “Foi Apenas um Sonho, eu refleti sobre o quanto os afetos cobram preços caros de nós mesmos e o quanto, apesar disso, não há vida sem eles. Há duas horas, este crítico, hoje com uma idade que não vem ao caso, saiu de uma sala de cinema pensando sobre a grandeza do que nos torna humanos apesar de todas as idiotices, e a guerra é uma das maiores, que fazemos o tempo todo. O filme era 1917. Em comum, estes três filmes trazem a assinatura de um magnífico diretor: Sam Mendes.

Durante a Primeira Guerra Mundial, dois jovens soldados britânicos, Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay), recebem uma missão impossível: levar uma mensagem dentro do território inimigo que impedirá 1.600 homens de caírem em uma armadilha mortal, incluindo o irmão de um deles. Com pouquíssimo tempo a dispor, eles terão que encontrar forças sobre-humanas para cumprir o dever.

Inspirado nas memórias do avô do diretor, a quem o filme é dedicado, e escrito por Mendes e Krysty Wilson-Cairns, 1917 é um filmaço em todas as acepções do termo. Impecavelmente construído em cada um de seus aspectos, ele é, sem dúvida, um dos melhores filmes do ano. Ou melhor, de alguns anos. E há de ser lembrado também como uma das maiores realizações no gênero filme de guerra. Leitor MetaFictions, estamos frente a uma obra-prima.

De cara, vamos falar daquilo que tem causado mais burburinho no longa: a maravilhosa edição que, sem exibir os cortes, causa a impressão de que o filme inteiro é um gigantesco plano-sequência. Que efeito! Se em “Birdman”, de Alejandro G. Iñarritu, tal recurso já causava arrepios, aqui o efeito é muito, mas muito maior, já que o desafio de o usar na grandiosidade do gênero enche a tela. É impossível, ao final da exibição, não se perguntar “como filmaram isso?” É de tirar o fôlego.

O roteiro é meticulosamente engendrado, até mesmo pelo tipo de narrativa proposta pela edição. É genial como ele consegue ser, ao mesmo tempo, simples e complexo, tradicional e inovador. É um roteiro extremamente sofisticado, que conta a sua história e exalta o cinema em si, já que valoriza aquilo que a sétima arte sempre fez: contar uma história através das imagens. Sua simplicidade vem da estrutura clássica em três atos e de se valer, por exemplo, no desenvolvimento do personagem de MacKay, da noção completa de trajetória do herói, tão bem esmiuçada nos trabalhos de Joseph Campbel. É uma história de ciclo completa, início, meio e fim. Mas o mesmo roteiro se expande e se renova quando opta por caminhos incomuns aos filmes do tipo.

Fugindo à estetização das guerras vistas normalmente nas telonas, a guerra de 1917 não é asséptica e seus personagens são homens comuns que lutam também pela própria vontade de se manterem vivos em meio ao horror. Mendes mostra uma guerra suja, com soldados que são obrigados a passar em cima de corpos de colegas mortos, ratos se alimentando dos cadáveres, trincheiras cujos arames farpados cortam mesmo, privação, medo, arrogância. A guerra de Sam Mendes é um mostruário do homem, com suas vísceras e todo o cortejo de seus sentimentos. Um dos momentos mais tristes, por exemplo, mostra a total desconstrução do modelo valorizador da gratidão e da humanidade. A guerra dissolve os homens.

Nessa visão tão poderosa, há que se destacar o sensacional trabalho do desenho de produção e da trilha sonora. Na simbiose desses dois elementos, os quais geralmente não são vistos juntos em críticas, o filme se eleva. A crueza dos cenários e da direção de arte se poetiza várias vezes pela inserção de uma música que é totalmente narrativa. A força das imagens é apoiada pela força da trilha. Precioso.

Da mesma forma que é preciosa e poética a fotografia de Roger Deakins, que em 1917 recebe a sua décima quinta indicação ao Oscar, tendo posto a mão na estatueta com a magnífica fotografia de “Blade Runner 2049“. Aqui, a fotografia atinge novos patamares de concretização cinematográfica. Explorando as imagens com uma força gigante, Deakins poetiza a tela e expõe subtextos dentro da diegese. As cenas noturnas são quadros que ganham vida e a luz do dia, quando mostrada em contraste do dia nas trincheiras e do dia em espaço aberto, são arte em estado latente.

Mas nesse gigantesco feito cinematográfico, o que brilha mais em cada frame visto é o genial trabalho do diretor. Sam Mendes faz a direção da vida (ouviu, Academia?) e suas digitais ficam em cada minuto de 1917. Que trabalho maravilhoso, que master class de um ofício. Da escolha dos planos, cheia de inventividade, como, por exemplo, a demora na exibição dos rostos de várias personagens que passam pelo caminho dos soldados, como se elas fossem exatamente isso, passagens em um dia de terror, ao trabalho com os atores, tudo na produção marca a presença de uma mão que sabia exatamente o que queria. Sam Mendes fez de 1917 um filme de diretor, daqueles que serão lembrados como documentos perenes de um realizador no pico de domínio da carpintaria do seu métier. Cinema de autor. Cinema com assinatura.

“Esperança é uma coisa perigosa”, diz uma das personagens em um dos momentos mais cruciais da história. 1917 dá ao cinema o desejo de enfrentar os perigos na esperança de que o cinema seja sempre o espaço no qual contamos de nossas lágrimas, dores, feridas, mesquinharias, mas, também, o espaço que mostra que, apesar de pequeno, o homem também pode ser maior que a vida.

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