Como manda a tradição “netflixiliana” dos últimos anos, cá estamos com nosso anime estreante da semana, que é 100% novo e original da nossa querida plataforma, 2020 – Japão Submerso. Com um trailer magnético e instigante e uma proposta visual com certa identidade própria, o anime mira num público mais amplo, trazendo uma história mais “verossímil”, mas sem deixar os otakus de plantão sem eventuais boas bizarrices. Mas e aí? Japão Submerso acerta seu alvo?

De cara já digo que sim. Assisti junto à minha namorada naruteira otaku de carteirinha. Ela e eu, tão otaku quanto, mas com um gosto mais refinado (Dragon Ball ;), chegamos às mesmas conclusões, no entanto com um leve desencontro sobre sua parte central. Dentre os diversos elementos que acordamos – que é de fato muito bom – foi a sua proposta que gira em torno de eventos reais, mas elevados à milionésima potência: terremotos na Terra do Sol Nascente. Estamos nos dias atuais, com as pessoas tocando suas vidas em suas rotinas, quando uma série de terremotos violentíssimos ocorre por todo o território japonês, forçando uma família a cruzar o país em busca de um lugar seguro. Mas adivinha só? O Japão está afundando, tornando essa tarefa virtualmente impossível. Como essa família e outros agregados farão para sobrevier? Eis a questão.

Se há algo que eu canso de ver em filmes pós-apocalípticos é um direcionamento mostrando o pior do ser humano em momentos de crise, para depois vir a redenção em momentos de pura abnegação em prol de estranhos. Aqui – de forma bem competente – temos um misto bem honesto de atitudes altruístas e execráveis perpassando diversos tipos de relação entre pessoas. Passamos por momentos de sacrifício, desespero, amor, compaixão, ódio, egoísmo e qualquer sentimento possível que possa surgir em momentos extremos. E talvez, de forma bem acertada, a temática que mais trouxe o pior que o ser humano possui em si foram os momentos de xenofobia. Vale ressaltar o quanto a abordagem disso é atual e necessária, ainda mais se considerarmos um passado não muito distante no qual o Japão Imperial colonizou de forma brutal diversos dos seus vizinhos, como a China e a península da Coreia, com ainda muitos resquícios de uma mentalidade conservadora e nacionalista em algumas pessoas e grupos.

Curiosamente, fazia tempo que eu não assistia um anime com um início avassalador e um final tão emocionante. Porém, infelizmente, temos um miolo com uma boa barriga, que destoa um tanto em qualidade do resto. Esse miolo conta com 2 momentos muito distintos e totalmente fora do tom posto nos primeiros 3 episódios. E, embora dialoguem com aspectos da cultura japonesa – e que infelizmente sob a pena de estragar sua diversão não posso falar a respeito -, no geral não agregam muito à experiência positivamente para o todo, mesmo que tenha eventuais poucos momentos interessantes.

E quando não há uma atmosfera que instigue nossa atenção com a obra, a parte técnica certamente nos carrega adiante. O design, a animação e a violência me lembraram MUITO um dos melhores animes da plataforma e um dos melhores do séc. XXI, “DEVILMAN: Crybaby“. Além disso, coisa que tanto eu quanto a naruteira que me acompanhava concordamos foi que o anime sofre da “síndrome do The Walking Dead” nas partes mais lentas. Temos um episódio sem nada muito interessante nele e – de forma completamente inesperada – alguém morre brutalmente em seu final. Embora até mesmo personagens importante sofram esse destino, não fica a impressão que eles eram descartáveis, mas, sim, que foram descartados e isso causa uma sensação poderosa de perda. Tudo isso embalado por uma trilha sonora espetacular, construindo momentos de fato emotivos. A impressão que tive foi de estar assistindo a um filme com uma atmosfera que incrivelmente me despertou tensão, horror e empatia na dose certa.

Japão Submerso vale seu tempo? Com toda a certeza, meus amigos. É uma obra altamente maratonável e mesmo que tenha um miolo grande e um tanto desconexo, vale pela beleza e aleatoriedade dos eventos.

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