Em 1787, um jovem Beethoven realizou o sonho de se encontrar com seu ídolo. Então o maior compositor e virtuoso do mundo, Mozart, já se encaminhando para seus últimos anos de vida e já impaciente por sua saúde debilitada, nada queria com algum prodígio desconhecido, mas, a pedido de um amigo, recebeu-o em sua casa. Beethoven esperava ter aulas com ele e concretizar o sonho de se tornar, ele mesmo, um nome a ser lembrado no mundo da música clássica. Mozart pediu, então, que o jovem rapaz lhe tocasse alguma coisa no piano. Beethoven tocou algo ao estilo de seu herói, provavelmente uma cópia de alguma de suas sinfonias, provavelmente como uma homenagem. Foi imediatamente interrompido com um “Qualquer um consegue tocar isso”. Frustrado, Beethoven exclamou “Dê-me um tema, qualquer tema!” e pôs-se a fazer o que fazia de melhor: improvisar. Mozart correu para a sala ao lado e chamou sua esposa “Venha ver esse rapaz! Algum dia ele vai dar ao mundo algo sobre o que falar!”.

Em Whiplash somos apresentados a um rapaz de 19 anos de idade, apaixonado pela música, determinado a se tornar um dos grandes bateristas de Jazz. Na parede de seu tosco dormitório lê-se: “Músicos sem talento tocam em bandas de Rock”. Aluno de uma das mais respeitadas escolas de música de NY, ele é encontrado por um dos maestros da casa enquanto pratica obstinadamente um swing em tempo dobrado. O maestro, interpretado por J.K. Simmons, se apresenta como uma figura intimidadora e misteriosa. Indaga incisivamente porque o rapaz interrompeu a prática quando ele entrou na sala e, quando a música reinicia, se vai, deixando na sala um ar de desinteresse. Na construção primorosa do filme (em roteiro e edição) é a dualidade ou dubiedade do personagem de Simmons que impressiona desde o início.

A história em si é batida e previsível, não muito diferente de Cisne Negro (Black Swan) (mas sem a esquizofrenia), não muito diferente de Karatê Kid (mas sem o Senhor Miyagi). O rapaz, interpretado por Miles Teller, é filho de um pai resignado com as cartas que a vida lhe deu, talvez um escritor fracassado, não se sabe com certeza, professor de uma escola secundária, abandonado pela esposa possivelmente por sua falta de ambição. O irmão deste é mais alto, mais forte, mais bem falante, com dois filhos altos, fortes e bem falantes, um deles capitão do time de futebol americano da Universidade de Madureira, o outro futuro funcionário do mês. Todos na mesa estão orgulhosos de suas conquistas na vida e o baterista é visto como aquele primo peculiar, magrelo, de quem se faz piada discreta quando diz que é o baterista titular da principal banda de jazz da mais prestigiosa escola de música do país. “A escolha dessa posição não é subjetiva?” pergunta o funcionário do mês. “Não”, o rapaz responde secamente sendo em seguida repreendido pelo próprio pai que, possivelmente, passou a vida toda se submetendo ao irmão maior. Parece ser esperado do rapaz que se contente com uma vida medíocre, mas segura. O pai teme que ele morra de abuso de drogas, como a maioria desses boêmios artistas. O rapaz quer viver uma vida memorável. “Sabe como Charlie Parker se tornou Bird?” pergunta o maestro ao rapaz em seu primeiro dia com a orquetra. “Um dia, quanto tocava no Reno Club, no inicio de sua carreira, Jo Jones arremessou um prato em sua direção de tão mal que ele tocou. Naquele momento ele se tornou Bird. Voltou pra casa e praticou por um ano e voltou àquele mesmo palco para provar seu valor… apenas relaxe, você está aqui por uma razão”. Nesse momento entende-se qual será a dinâmica do filme; um mestre e um pupilo.

Ou é o que parece.

Logo em seguida um dos metais parece estar desafinado. “Acuse-se”, clama o maestro sendo seguido por silêncio. “Ultima chance de quem está desafinado se acusar” e o silêncio se transforma em medo. O maestro confronta um trombonista gordinho e amedrontado, o estereótipo do gordinho inseguro de camiseta suada nos sovacos e pequena demais pro seu tamanho, ego esmagado demais pra reagir com algo além do choro. Depois de ser verbalmente agredido e humilhado, o gordinho é dispensado da banda e, provavelmente, de seu sonho de se tornar músico. Entende-se, então, por um segundo, que o maestro será um desses mestres extremamente exigentes e tão focados na qualidade de sua música que não mede esforços pra que sua banda seja a melhor. No segundo seguinte ele olha pra um rapaz alto, loiro, com aquele ar de “esse cara tem cara de vencedor” e diz “não era ele que estava desafinado, era você, mas ele não sabia disso e isso pra mim é o pior de tudo. Já estava de saco cheio desse gordo preguiçoso”.

É então que a temática do filme mudou, pra mim, ao menos. Não é um filme de mestre-aprendiz. É um filme sobre bullying. Se o maestro realmente e honestamente amasse sua música, ele teria expulso o músico que errou, não aquele que tinha cara de perdedor nato. Ele o fez no momento em que um novo membro entrava no grupo e o fez pra que ele entendesse a lei. Lei essa que seria, nos minutos seguintes, aplicada com todo o rigor sobre o jovem baterista. “Eu sou o alfa dessa porra!”. Tal tática era empregada já pelos espartanos há milhares de anos. 20 mil espartanos na pequena ilha da Sicília escravizaram 150 mil Ilotas que, por número apenas, poderiam dizimar seus captores. Mas de tempos em tempos os capatazes escolhiam um escravo mais fraco e o surravam até a morte, garantindo por mais um bom tempo que ninguém ousasse se opor a seu jugo. Bullying.

As exigências do maestro obrigam o jovem baterista a se esforçar além de seus limites, a estudar e praticar enlouquecidamente, mas, ao mesmo tempo, lhe dão uma sensação de potência. Ele foi escolhido pelo maestro pra ser o primeiro baterista da principal banda de jazz da maior escola de música de NY e possivelmente país. Ele, de repente, encontra coragem pra convidar a balconista da sala de cinema pra um encontro. Ela não sabe o que quer da vida. Ele sabe tanto e com tanta certeza que é apenas o que ele é capaz de ver. O relacionamento se encerra de forma fria, quase cruel. Uma crueldade que remete à própria crueldade sofrida pelo rapaz nas mãos de seu bully. Uma crueldade que parece não ser dele, numa decisão que parece não ser dele e sim de seu “mestre” e que parece justificável perante a promessa maior de glória, de imortalidade. Parece, mas a realidade é que tal crueldade é oriunda da eterna covardia do rapaz que precisa provar a todos que não será um fracassado e o era exatamente por isso.

O brilhantismo do roteiro e a magistral atuação de Simmons novamente nos surpreendem quando um de seus antigos pupilos morre. Seu choro doído e a interrupção da aula para se assegurar que, ao menos, aqueles músicos soubessem seu nome e ouvissem sua música nos convence sem nenhuma dúvida da sinceridade de seu amor pela arte e pelo magistério. Ele lhes conta que o rapaz morreu num acidente de carro. Uma tragédia do destino que ceifou a vida de uma promessa da arte, pensei. Mais tarde descobre-se que o mestre não era um mestre, mas, sim, um ególatra. O rapaz havia se enforcado em seu quarto no cume de uma depressão que, parece, se iniciou quando fora aluno do maestro. Porque mentir sobre o acidente? Por que admitir que a morte do rapaz foi responsabilidade sua seria admitir que estava fazendo algo de errado. E ele obviamente não poderia estar fazendo nada de errado! Ele caçava obstinadamente pelo próximo Charlie Parker e isso justificava qualquer ato seu.

O filme prossegue em explorar a luta do baterista em superar todo e qualquer desafio imposto pelo maestro. “Pinte a cerca, encere o assoalho”. As mãos doem, o corpo sofre. Mas o maestro não é o Senhor Miyagi. Não há “Bom trabalho, Daniel San”. “Não há nada mais trágico que ‘Bom Trabalho'”. No que é o primeiro clímax do filme, em uma belíssima cena com câmera trêmula, edição ágil que remete aos saltos cognitivos de uma mente forçada ao extremo, uma fotografia com um diafragma 1/3 mais aberto do que o necessário, mostrando as pupilas dilatadas de um jovem saturado de adrenalina, o pobre rapaz, sem nenhuma culpa de o ônibus ter quebrado a caminho de um recital, é forçado a fazer o impossível para estar lá a tempo. Quando chega, esqueceu suas baquetas na loja onde alugou um carro, às pressas.

Ele poderia emprestar baquetas de algum outro músico, mas o maestro não o permite. Ele tem a obrigação de ser perfeito, acima de qualquer fatalidade. “As cortinas se abrem em 5 minutos. Se você estiver sentado à bateria quando elas se abrirem você pode tentar me provar que merece estar ali, se não, está fora da banda”. No que parece ser um último fôlego, ele corre de volta à loja, apanha suas baquetas e corre de volta ao teatro, envolvendo-se em um grave acidente contra um caminhão, capotando e visivelmente quebrando a mão. Desvencilha-se do outro motorista, que tenta prestar-lhe socorro, e entra no palco, cabeça sangrando, mão torta. Tenta tocar assim mesmo, mas derruba a baqueta com a mão estraçalhada.

O que leva uma pessoa a se submeter a isso? Por que ele não mandou o maestro se foder? Eu sei porquê. Eu estava lá naquele dia. Eu não bati com o carro, mas perdi os sentidos em frente ao Terminal Menezes Côrtes e reapareci próximo à embaixada dos Estados Unidos quando um transeunte me salvou de ser atropelado ao atravessar a rua balbuciando sobre a localização do escritório da Rio Arte com um envelope na mão. Eu me desvencilhei daquele que me salvou a vida e prossegui até encontrar o prédio que me havia sido ordenado encontrar. O Senhor Miyagi teria tido a sensibilidade de perceber o esforço sobre-humano que aquele rapaz fez para provar seu valor. Mas o maestro não é o Senhor Miyagi. Um bully quer que o universo se submeta à sua vontade. O rapaz é demitido da banda, no palco, diante da platéia, e num acesso de fúria agride o professor, sendo, assim, expulso da escola. É convencido pelo pai e por uma advogada a testemunhar contra o maestro no caso do suicídio do ex-aluno. De início o rapaz se recusa a dedurar seu bully, atitude comum nas vítimas de abuso, mas é persuadido a fazê-lo.

Ao que parece ser um bom tempo depois, ele reencontra o maestro tocando em um pequeno bar. Ele toca piano com um trio de jazz. Não toca mal, mas também não é nada memorável. Correto com alguma boa vontade, mas de forma alguma brilhante. “Quem não sabe ensina” me dizia o homem que exigiu, às onze horas da manhã, que eu levasse o tal envelope à Rio Arte até o meio-dia e, quando indagado sobre a localização do prédio enquanto navegava calmamente a internet no único computador do escritório me gritou “SE VIRA, PORRA!”. O maestro conversa com o baterista, como se nada tivesse acontecido, e num discurso comovente lhe confidencia que fora demitido da escola e expõe sua paixão pela música e sua busca incompreendida por forçar seus alunos ao limite para que eles alcancem seu potencial máximo e, assim, quem sabe, ele encontre seu tão evasivo “Bird”. Convida o rapaz a integrar sua banda em um recital no Carnegie Hall e, por um momento eu fiz as pazes com a ideia de que, no fim das contas, era, de fato, um filme mestre-discípulo e de que, fora daquele ambiente acadêmico competitivo, bastante típico das escolas norte americanas, as duas almas apaixonadas pela arte poderiam colaborar para criar algo belo.

O baterista se sente reconhecido, digno, potente até. Liga receoso para a balconista de sabe-se lá quanto tempo atrás e a convida para o show. Ela diz que vai consultar seu namorado em uma cena precisa, econômica, sem nenhuma gota de pieguice mas que, no olhar decepcionado do rapaz demonstra toda a tristeza e solidão que ele deve ter sentido. E sozinho (apesar da presença sempre hesitante do pai) ele vai ao encontro do que deveria ser o inicio de seu destino brilhante. “Lembrem-se que as pessoas nessa platéia podem lhes abrir as portas para o sucesso” – alerta o maestro – “mas se fizerem alguma cagada, lembrem-se que eles jamais se esquecem… ah, e a propósito, Mr. Neimann, eu sei que foi você que me dedurou…”. A primeira peça do recital é uma música original inédita que o rapaz nunca havia ensaiado e falha miseravelmente em suas tentativas de acompanhar o restante da banda mais velha, mais experiente e, obviamente mais bem ensaiada, que o olha com espanto e repulsa. Como todo Bully ao ser denunciado, o maestro exerce sua força ao extremo, destruindo publicamente a carreira do rapaz, e, ao fazê-lo, dá a ele o maior presente que um artista pode receber: não ter mais nada a perder. Expulso da escola, substituído pela amante, ridicularizado diante das figuras mais influentes de seu meio, ele retorna ao camarim, abraça o pai que amarga um “eu te disse” na garganta e retorna para o que é o momento magistral do filme e um dos atos finais mais brilhantes que eu já vi.

Em 15 minutos de um duelo que se equipara aos melhores filmes de samurai, Mr. Neimann retorna ao palco, sem medo, sem dúvida, sem nenhuma deferência e, ignorando completamente a direção do maestro, inicia uma brilhante introdução. “É Caravan” diz ele ao baixista “não se preocupe que eu te dou a deixa” e os dois iniciam a música, forçando a banda a acompanhá-los ou admitir, eles mesmos, despreparo. Fosse o maestro um verdadeiro mestre apaixonado pela arte ele o olharia com um sorriso discreto e reconheceria que esse era o momento que ele tanto aguardou. Ao contrário, furioso ele ameaça arrancar os olhos do baterista que o ignora e passa a, ele próprio, reger a banda, relegando o Bully a uma figura perdida no palco, tentando parecer que merece o emprego. O maestro, num belo contragolpe, encerra a música no momento certo, com o punho cerrado como sempre fez, clamando sua própria potência, e é veementemente ignorado pelo baterista que inicia um brilhante solo de bateria. Ao contrário do que pensava o maestro Terence Fletcher, Charlie Parker não se torna “Bird” no momento em que leva uma gongada. Charlie Parker se torna o maior saxofonista de todos os tempos e o percursor do movimento Bee Bop quando, um ano depois, ele retorna ao mesmo palco e esfrega na cara de seu gongador a frase “eu sou superior a você”. Fletcher tenta retomar o controle da tropa e rege uma lenta descida de tempo no mesmo swing em tempo dobrado que o jovem baterista praticava no dia que se conheceram. E é aí a prova maior de que Fletcher não era um mestre. Mr. Neimann não aprendera nada com ele. Ele já estava se matando de estudar o que Fletcher exigiu que ele se matasse de estudar. Ele teria chegado ao mesmo resultado técnico com ou sem ele. Mas ele não teria ido além da técnica. Não teria se tornado “Bird”. Fletcher foi, no fim das contas, sua esfinge. “Decifra-me ou te devoro”. Ao forçar o rapaz ao extremo, ele o força a perder o respeito pelo mestre (e pela academia), a perder o respeito pela técnica, e ultimamente, a perder o respeito pela tradição e pela arte. Não perder o amor, mas perder o respeito, a idolatria e, com isso, a subordinação. Em um crescendo belíssimo e preciso, o jovem baterista acompanha a regência do mestre e parece que, por fim, os dois estão em uníssono. Até que, nos 5 segundos finais da peça (e do filme) após um sonoro “finale”, Fletcher lança uma “curve ball” para Neimann e rege um segundo final, um último desafio, que Neimann, mesmo exausto e, aparentemente desatento, acompanha com primor numa afirmação de “Não há nada que você possa arremessar na minha direção que eu não seja capaz de rebater. Eu sou superior a você”. E o filme se encerra nessa nota. Preciso, enxuto, maestral.

Quando Beethoven, com 16 anos de idade, diz a Mozart “manda!” e o desafia com um improviso inédito, ele encontra seu caminho. Ele o vence quando tira o jogo das regras formais de Mozart e cria a sua própria regra. Mozart se imortalizaria como o maior compositor da música clássica, mas Beethoven seria o percursor de tudo o que viria a seguir. Foi o desrespeito a seu ídolo, à técnica, ao estilo, à academia que permitiu a Beethoven criar o que foi o inicio da arte moderna. Uma arte que nega qualquer formalismo, qualquer regra, qualquer técnica. É esse desrespeito que permitiu a Bird se eternizar na história do Jazz e da música moderna ocidental por ousar improvisar com escalas dissonantes. Não foi a orientação do mestre que forjou um Neimann virtuoso, foi o desrespeito à antiga ordem e a fundação da sua própria. O artista precisa desprezar tudo, mesmo o que admira, sem pudores ou medos, para atingir a plenitude de sua arte. O filho precisa matar o pai para encontrar sua própria potência. Pergunte a Zeus.

por Vlamir Marques

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