Um filme de roadtrip pode trazer belas lições de vida, proporcionar boas doses de comédia e/ou também emocionar com cenas dramáticas – vide “Pequena Miss Sunshine”,”Capitão Fantástico”, “Transamérica” e afins. O elemento principal que pode tornar um filme de roadtrip marcante é a enorme gama de possibilidades que a inconstância de cenário traz ao roteiro, já que permite ao escritor ir longe em sua narrativa. E em 4 Latas esse longe é literal: os personagens vão da Europa a Ceuta e depois até Mali, na África, de carro, o que, segundo o Google Maps, significa mais de três dias considerando uma viagem ininterrupta. Tá amarrado.

Passada a revolta diante de uma ideia de gerico dessas de cruzar não-sei-quantos-mil quilômetros, sendo considerável parte desses em pleno deserto, em um carro dos anos 80, há de se lidar com outras raivas que o filme, infelizmente, faz com que passemos. A história é basicamente a seguinte: Tocho (Hovik Keuchkerian) recebe uma carta notificando que um amigo de longa data, Joseba (Enrique San Francisco), está morrendo lá nos confins de Mali. Ele decide que é de bom tom ir ver o cara morrer e convoca o também outro parceiro de longa data, o francesinho Jean Pierre (Jean Reno), para essa enrascada inacreditável. Dentre as ótimas ideias que Tocho não para de ter, vem a de chamar também a filha de Joseba, Ely (Susana Abaitua), que teve o pai ausente a vida toda, pra dar um beijinho nele antes de morrer. E ela vai sob a desculpa de que a vida dela já está uma merda o suficiente – naquele esquema “pior que tá não fica”. No DESERTO tem como ficar sim, linda.

Opa, parece que acabou de sair da vistoria. Vamos!

Daí em diante o roteiro é descaradamente fraco e não tem compromisso nenhum com amarrar algumas linhas narrativas. Por que aqueles amigos não se falavam mais? Por que Joseba abandonou a filha? POR QUE ELES NÃO PEGAM UM AVIÃO? Muitos são os porquês que permanecem sem resposta e deixam a história rasa. Tentativas falhas de comédia pastelão ou drama com material que não tem espaço pra drama empobrecem a história. Os três passam por perrengues previsíveis e que chegam a se repetir, acredito que por falta de criatividade do roteirista, dentro da história.

Dando sequência aos motivos que fazem que o longa não funcione, a construção dos personagens é exagerada e segue clichês tão batidos que lhes esvaziam qualquer essência. Ely é a adulta com alma de adolescente que dá piti enquanto masca chiclete com a boca entortada; Tocho é um toscão que peida, arrota, fala palavrão e trata todo mundo mal; Jean Pierre é o gringo fresco que não aguenta nenhum clima diferente do francês e ora aparta os atritos entre Ely e Tocho, ora fica dando PT de insolação.

Um cara aleatório, Tocho, Ely e Jean Pierre

Por fim, os três chegam ao destino e o que mais me incomoda na história toda é a absoluta ausência paterna de Joseba não ser uma questão relevante na trama, já que chegando lá fica tudo bem de maneira orgânica. A forma que os imprevistos pelo caminho vão se configurando e se resolvendo é também história pra boi dormir e o filme não cumpre papel nem de entreter, nem de comover. Fica como saldo uma produção que não tem gosto e imediatamente se desfaz da memória do telespectador pela falta de originalidade e até mesmo vontade da parte dos criadores, que diante de um prato cheio de possibilidades que o filme de roadtrip, dá entregam um Cup Noodles feito no microondas.

Para não dizer que não há absolutamente nada de bom no filme, há cenas da beleza assustadora do deserto e das regiões africanas (apesar de não ter sido filmado, de fato, em Mali, e sim em Marrocos, Senegal e nas Ilhas Canárias, segundo o Mr. Google). No mais, acaba por ser só um imenso e injustificável desperdício de gasolina.

Méh.

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