Em um momento em que a opinião pública se divide em extremos, ora realizando rasos discursos incongruentes de justificativas banais a criminosos, ora promovendo uma falácia odiosa de extermínio dessa parte da sociedade, a Netflix (em mais um esquema de compra dos direitos da distribuição internacional e não uma produção realmente original) lança o filme A 4ª Compahia, retratando uma penitenciária mexicana na década de 1970, uma instituição supostamente modelo em nível internacional. Um dos grandes destaques dela é montar um time de futebol americano, chamado Perros, tentando renovar as perspectivas de seus prisioneiros diante de uma vida a ser recomeçada.

Acompanhamos mais de perto a história do mais novo integrante do local, o rapaz Zambrano (Adrian Ladron), cujo objetivo principal ali dentro parece ser mais entrar para o time do que obter a liberdade. Enquanto tenta se acostumar aos conflitos inerentes a esta instituição de vigilância e punição – sejam da parte dos detentos entre si, seja entre eles e os policiais – Zambrano continua firme em seu propósito esportivo. Especialmente porque, dentro do encarceramento, os Perros parecem gozar de determinadas benesses promovidas pela direção do presídio.

Los perros.

Ao realizar seu “sonho de encarcerado”, Zambrano se vê obrigado a participar de um sem-número de assaltos para além dos portões da prisão. Essa é uma das funções desse time de futebol americano: os seus integrantes formam uma quadrilha alimentada pelos demais figurões da Segurança mexicana, atuando nas ruas, enquanto são respaldados pelos patrulheiros comuns. Muito semelhante às milícias que vemos por aqui por agora. Nada mais eficiente do que ladrões já presos para realizar os roubos e fornecer a maior parte dos ganhos aos “milicianos”. Fora isso, dentro da instituição, estes são responsáveis pela vigilância dos outros meliantes, podendo experimentar um pouco de poder, ainda que com a liberdade limitada a todo eles. Já fica nítido que o suposto presídio-modelo narrado no início do filme fora mera propaganda enganosa do Estado então vigente.

Baseando-se em uma história real, os diretores Mitzi Vanessa Arreola e Amir Galván Cervera constroem sua necessária crítica ao sistema penitenciário mexicano (identificado, durante os créditos, como um dos piores de todo o planeta até hoje). Porém, analisando a peça cinematográfica em si, parece-me que ficaram perdidos entre muitas histórias que quiseram contar nessas 1h50 de duração. Resulta que a obra mais se assemelha a um conjunto de situações e histórias que não foram bem narradas, sendo costuradas lado a lado, tal qual retalhos que tentam se entender uma coisa só.

Zambrano e seus conflitos.

Apesar de interessante em sua essência e de imperioso em sua temática, o resultado cinematográfico não acompanha os adjetivos citados.

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