Quanto eu tinha os meus 18 anos, eu trabalhava com uma pessoa chamada Ângela. Ângela era promíscua, ex-viciada e havia sido presa porque esfaqueara seu ex-marido que a espancava quase que diariamente. Naquele momento, Ângela (ou Dona Ângela como eu a chamava), tinha já seus 50 anos e havia deixado toda esta vida para trás, menos a questão da promiscuidade, o que eu acho ótimo, mas que, segundo ela, poderia vir a impedir que ela fosse salva. Ângela era uma evangélica convertida daquelas que haviam encontrado Jesus e realmente dado uma guinada em sua vida, ou seja, ela era o estereótipo perfeito daquele crente chato que fica te enchendo o saco querendo te converter.

Ou pelo menos era essa a minha impressão com 18 anos. Dona Ângela me fez entender, depois de muito me encher a paciência, que essa tentativa de catequizar os infiéis é, primordialmente, um ato de amor, idêntico, a grosso modo, à sua mãe te perturbando para fazer o dever de casa. Aos olhos daquele que crê, não há qualquer sombra de dúvida de que a salvação da minha alma, da sua e da de qualquer ser humano só virá com a aceitação da palavra de Cristo no coração. Portanto, quando um “crente chato” te “enche o saco”, ele não o faz (ou não deveria fazer) porque quer soberbamente te convencer que a verdade dele é melhor que a sua. Ele o faz porque te ama e não vê qualquer outra possibilidade para que você seja salvo que não em Jesus Cristo, de maneira similar ao que um ser humano médio tentaria fazer ao tentar fazer alguém desistir de se suicidar, por exemplo.

Come Sunday

Dona Ângela estava longe dos meus pensamentos há 15 anos, mas voltou à minha mente enquanto eu assistia a este bom A Caminho da Fé. Quero, antes de continuar, dizer que vou aqui me reservar o direito de não tecer as brutais críticas que eu particularmente tenho contra as religiões organizadas e, principalmente, contra aquelas organizadas como um negócio, tal qual ocorre com o movimento pentecostal americano e seus televangelistas, justamente a vertente de onde o protagonista do longa sai. Vou me limitar a analisar o filme e o fascinante tema que é o tal caminho da fé do título, o feroz conflito que a fé, a mais subjetiva das emoções humanas, causa dentro de quem a carrega, tal qual faz o filme.

Chiwetel Ejiofor – que aqui é apoiado por um excelente elenco com nomes de peso como Jason SegelDanny GloverMartin Sheen e um dos meus atores novos favoritos: Lakeith Stanfield – vive o bispo Carlton Pearson, pregador de uma das maiores, mais ricas e mais miscigenadas igrejas do movimento pentecostal americano. Em sua primeira aparição, toda essa história que contei sobre a Dona Ângela se desdobra aos nossos olhos em uma cena muito bem filmada. Pearson, um pastor crente e com uma missão, não tem qualquer alternativa que não tentar salvar a alma da pessoa que senta ao seu lado no avião, pois ele SABE que aquela alma está condenada ao inferno. É seu dever precípuo enquanto pastor construir o seu rebanho, espalhar a palavra e salvar o máximo de almas que ele puder, ainda que num avião.

Ocorre que Pearson, muito sério em sua fé e justamente por causa disso, ouve a voz de Deus após tomar uma atitude correta, mas que talvez tenha ajudado a ocasionar uma morte em sua família. Ele então chega a conclusão que Cristo morreu por todos os nossos pecados – cometidos até então ou que viriam a ser cometidos depois – e, portanto, absolutamente NINGUÉM precisa ser salvo já que Jesus já teria nos salvado a todos. Isto, inclusive, viria para corrigir aquilo que nós, de fora do cristianismo, percebemos como uma injustiça absurda: a de que povos indígenas que jamais tiveram acesso ao cristianismo iriam para o inferno, ou então que todo mundo até o surgimento de Cristo queimaria, ou recém-nascidos não batizados. A lista de gente condenada ao inferno injustamente, posto que jamais expostos a palavra de Cristo, é muito extensa.

Mais uma vez sentindo-se compelido a tanto, já que ele teria ouvido a palavra Deus diretamente, Carlton prega a desnecessidade da salvação, indo violentamente contra todos os dogmas do cristianismo que, por acaso, são justamente aqueles que fazem com que a religião seja necessária para 99% de seus fiéis. Adorar a Deus e Cristo, para aqueles que acreditam, é um prazer em si mesmo, mas cuja principal motivação é a de que a sua alma será salva e você não sofrerá eternamente no inferno. Tirante isso, a religião organizada, conforme se comprova com a violência ideológica com a qual Pearson foi tratada após propor a questão, de nada serve e, se a religião de nada serve, de menos ainda servem os homens de batina e é aí que está a provação que Pearson se vê obrigado a enfrentar.

A Caminho da Fé é um filme que fala sobre os desafios da fé de um homem que, mesmo perdendo fiéis, sendo defenestrado da própria igreja que ajudara a construir e esculhambado por seus pares, se mantém fiel a si próprio e à palavra de seu deus, o que, por si só, é fascinante. Trata-se da história de um homem que vai contra o status quo não porque terá vantagens ou uma vida mais fácil, mas porque, assim como Dona Ângela lá no começo desse artigo, não tem qualquer opção sendo ele quem ele é.

Cheio de diálogos bem construídos e atuações excelentes, com destaque para o Ejiofor e Stanfield, a Netflix, mais uma vez, acerta com um filme pequeno, de orçamento modesto, mas que conta uma história necessária, relevante e dando, mais uma e salutar vez, voz a novos diretores e realizadores.

Dito tudo isso, cabe dizer que este filme é baseado na real e radical mudança de atitude do Bispo Carlton Pearson no final da década de 90 nos EUA e, justamente para me manter totalmente imparcial na minha análise da obra cinematográfica, eu não pesquisei absolutamente nada sobre a veracidade do que é mostrado na tela, sendo certo que é necessário aqui ter uma aceitação similar àquela que nos permite ter alguma diversão ao ver super-heróis voando por aí e explodindo tudo com suas mentes, a tal suspensão de descrença. Caso contrário, você passará a exibição inteira completamente puto com um pastor charlatão (como estes que temos por aqui) que provavelmente deu um golpe de modo a juntar um novo rebanho de pessoas que pecam por que sua própria existência é um pecado segundo os preceitos cristãos, como os homossexuais, a comunidade trans e por aí vai.

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