Iniciado quase como uma ode da própria personagem do filme ao grande escritor americano de terror H. P. Lovecraft, o filme conta a história de Elizabeth e Vera, que estão de mudança, junto com a mãe, para a casa não mais habitada da tia. As duas ainda muito jovens, cerca de 14 e 15 anos, têm a animosidade digna de irmãos dessa idade e durante a viagem Vera demonstra tédio puro, enquanto a mãe é toda atenção à leitura da nova produção de Elizabeth, uma escritora de terror wannabe que gostaria de ser a nova H. P. Lovecraft do século XXI. Durante o trajeto, são abordadas por um caminhão de doces que quase bate nelas para, antes de seguirem viagem, darem um “tchau” meio assustador. Em uma parada para gasolina, as meninas leem a notícia de que algumas famílias são brutalmente atacadas por invasores desconhecidos. O clima está, desde o primeiro momento, estabelecido.

Chegando em casa, deparam-se com a não menos bizarra decoração da casa da tia, sua nova habitação. Uma infinidade de bonecas ao redor dos móveis, quase como um fetiche louco da antiga moradora. Tudo isso vai criando o clima dos contos de casa assombrada e bonecos risonhos com olhares obsessivos. No entanto, o terror dessa história vem de mãos e mentes humanas. Enquanto realizam a mudança, naquela noite, retirando as bagagens do carro e fazendo a arrumação dentro dos cômodos, aquele caminhão de doces para no terreno e duas pessoas invadem, sendo uma delas um gordo gigante estilo Juggernaut sem armadura, que submete as três mulheres, enquanto promove ações lascivas para com os brinquedos decorativos. O palco está armado.

A representação do trauma delas.

A narrativa entra em um paralelo de algo como presente-passado. Anos depois, Beth se tornara uma grande escritora no melhor estilo Lovecraft, utilizando-se de elementos auto-biográficos para a produção de histórias viscerais, e sua irmã continuara morando com a mãe; porém Vera nunca se recuperara do trauma imposto na noite da chegada. Com sérios problemas mentais, virando uma pessoa nada sociável, ela permanece no porão, onde seu algoz a destruiu psicologicamente. Sentindo a necessidade de ajudar os familiares, Elizabeth deixa, por uns tempos, sua casa com marido e filho e retorna ao templo de horror de antes. Lá a confusão volta a se estabelecer. A história que estávamos a ver sofre um turning point que pode mudar a perspectiva de tudo.

O gênero utilizado para esta narrativa funciona em plena harmonia, visto que Pascal Laugier está falando sobre as diversas formas de se vivenciar um trauma. Através da figuras das irmãs, opostas em personalidade, bem como da mãe, o diretor vai apresentando caminhos para a superação de uma tragédia. Há aqueles que sucumbem ao terror marcado pela experiência; há os que enfrentam cara a cara, buscando sempre uma saída para qualquer eventual armadilha; e há, ainda, os que elaboram um bloqueio mental para não ter que lidar com a situação. De todo modo, para cada um dos casos, o elemento em comum serão as sequelas deixada por aquilo que se abateu sobre cada qual.

O instinto de sobrevivência.

A Casa do Medo – Incidente em Ghostland é todo estruturado em suspense e terror, porém os recursos desse estilo não são usados para o mero susto e medo em seu espectador. A opção foi que, através das principais características do gênero, a história aprofundasse nas formas pelas quais alguém se relaciona com suas experiências mais negativas possíveis. A produção, portanto, investe no que há de mais instintivo no ser animal: a necessidade de existir diante das mais nocivas relações impostas pelo seu habitat principal.

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