Se tem uma coisa que na Netflix parece ter dado certo são as séries espanholas. Até hoje – e meio que sem grandes explicações – temos aqui no site um sem-número de visitas a resenhas de algumas dessas produções de tempos atrás. Essa procura talvez denote o grande sucesso desse investimento do streaming. Nesse contexto, portanto, A Desordem que Ficou, nova produção original do país, é mais um nessa lista; se obterá o mesmo apelo que seus antecessores, só o tempo dirá. No entanto, enquanto realização em si mesma, nossa perspectiva pode a distanciar de suas conterrâneas.

Aqui temos uma série de mistério, de 8 episódios que não seguem uma duração consistente (sendo alguns de mais de 50 minutos e outros entre 35 e 45), envolvendo muitos personagens e muitos assuntos diferentes. A narrativa apresenta, em paralelo, a história de duas professoras. Uma, que aparecera afogada, em uma suposta ação contra si própria, chamada Viruca (pela poderosa Bárbara Lennie); e sua atual substituta Raquel (muito bem por Inma Cuesta). Esta, chegada há pouco à pequena cidade onde todos conhecem todos, tentará criar sua carreira naquela escola, com aquela mesma turma pouco convidativa com a qual Viruca passara seus dias mais agoniantes. Quando os mistérios da cidade e do que realmente acontecera a ela vão emergindo diante de segredos e boatos, Raquel vai mergulhando cada vez mais em um caos local que ela tenta, a todo custo, desvendar, colocando em risco sua vida e de seus próximos.

A poderosa Viruca fragilizada.

A série, que começa com uma sugestão de romance dramático e misterioso, passa para uma perseguição enfática em meio a uma sugestão de superneurose por parte de sua protagonista e depois vira uma trama rocambolesca que tem até políticos corruptos envolvidos. Mas até tudo bem; muito embora pareça em vários momentos que a narrativa não se decide pelo que quer, ela até produz seus ganchos que fazem uma temática “casar” com a outra, sem ficar nada muito esquizofrênico. O problema todo, a meu ver, é que a direção e o roteiro se utilizam da velha “milonga” de criar falsas expectativas no espectador, levando-o a acreditar em determinada coisa que, depois, revelar-se-á absolutamente nada a ver com o que de fato era. Vários plot twists só para causar, mas que pouco influenciam na força da narrativa. Seja um personagem que aparentemente era bom e flerta com um vilanismo (ou o contrário, também); seja uma construção de história que caminhava por determinada trilha bem clara, mas que encontra uma ponte e muda de direção quase que por completo; seja pelos usos de conflitos momentâneos que, depois, não se justificam.

Apesar desses problemas que me parecem muito claros, há os pontos positivos. As personagens principais são muito bem construídas e têm uma força, apesar das fragilidades provenientes de traumas pessoais. Mulheres estas, tanto Viruca (aliás, cabem parênteses aqui por esses nomes incríveis; há uma personagem chamada Concha, o que em espanhol tem um significado muito curioso) quanto Raquel, com uma pegada feminista muito forte, mas que caem constantemente na mão de homens machistas e relacionamentos abusivos, apesar de tentarem se desvencilhar a todo custo mantendo suas posições bem definidas e definitivas. Além disso, o clima de mistérios e suspense psicológico é constante e consegue produzir o efeito que toda série necessita: provocar o espectador a ponto de querer assistir logo o próximo capítulo. Dessa forma, vamos andando lado a lado com cada uma dessas histórias que se cruzam, querendo desvendar todos os mistérios que, bem criados ou não, surgem diante de nós.

A frágil Raquel investida em poder.

Entre acertos e problemas, a série cumpre sua proposta de prender e envolver quem assiste pelo mistério construído. Apesar de não concordar com muitos de seus usos ou plot twists que parecem, por vezes, aquele zombeteiro que surge do nada, ou de construções pouco lapidadas em alguns de seus personagens, os pontos positivos não são engolidos pela falta de refinamento em determinadas passagens. É um bom entretenimento, mas que não vai além como poderia. Ensaia diversas possibilidades de alcançar essa ascensão, mas não desenvolve.

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