Confesso que, todas as vezes em que vou ao supermercado, fico olhando as velhinhas escolhendo legumes, discutindo o corte da carne com o açougueiro ou passando orações de novenas na fila do caixa e tenho minha mente assaltada por pensamentos como “essa daí devia ser traficante de órgãos na juventude” ou “aposto que era ladra de joias nos anos 50”. É doentio, eu sei. Mas a imaginação é um cavalo selvagem.

Assim, o plot de A espiã vermelha, estreia da semana dirigida por Trevor Nunn, atiçou diretamente os meus devaneios supermercadescos. Baseado parcialmente na história de Melita Norwood, o longa traz Judi Dench e Sophie Cookson dividindo o papel de Joan Stanley, que, nos anos de 1930, estudante de Física na Universidade de Cambridge, acaba se transformando em espiã da KGB de Stalin. Mais de cinquenta anos depois, a velhinha insuspeita que cuida do seu jardim tem a sua história e seus segredos descobertos pelo Serviço de Inteligência Britânico.

Se a premissa do filme excita, o resultado decepciona. Mas, antes de entrar nos aspectos “meh” da produção, paremos nos dois melhores momentos dela. Começando pelo maior deles: Judi Dench e Sophie Cookson. Dame Dench é uma fábrica de competência em atuação. A mulher está sempre impecável e aqui não foi diferente. Sua Joan é meticulosamente construída, cada gesto e olhar revelando o trabalho de uma atriz que domina a técnica sem que esta robotize sua performance. Já Cookson, que interpreta Joan na juventude, empresta uma paixão e uma vulnerabilidade à personagem que deixam na tela uma marca muito bonita de entrega. As duas estão de parabéns e conseguem tirar o máximo do que lhes é dado.

A parte técnica também não faz feio. A fotografia de Zac Nicholson cumpre com bastante competência e beleza a função de passear entre os dois momentos da vida da protagonista, a reconstrução de época se apoia em bons cenários e figurinos, a trilha sonora comparece bonitinho também.

Mas existe um elefantão vermelho-comunista parado no meio da sala. O filme simplesmente não decola em nenhum momento. A tia do ritmo que mora em mim não conseguia acreditar que a produção tinha menos de duas horas de duração, porque a sensação “térmica” era de um filme interminável. Simplesmente não decola. Não decola. Mesmo.

O primeiro responsável pela marcha lenta é o próprio roteiro. As cenas são construídas em modo preguiça, não ousam, não são tomadas de paixão. Todas as motivações interiores das personagens, em vez de tomarem a forma de explosões visuais, se reduzem a longas e pobres explicações verbais, numa prolixidade chata pra cacete. Até a discussão ética sobre a espionagem, em um dos momentos que deveria ser puro soco no estômago, quando Joan explica o porquê de ter entregue os segredos de desenvolvimento da bomba atômica para os russos, falha no quesito empolgação.

Os outros dois vilões são a direção de Trevor Nunn e a edição do filme. A primeira opta pelo caminho mais tradicional, com escolhas que não desafiam nem o olhar nem o intelecto do espectador. A segunda é apenas funcional, não impele nem complementa a narrativa. Chato.

É, não foi dessa vez que meu sonho de um filme sobre a vida secreta das velhinhas se realizou. Mas ainda escrevo um roteiro para a Judi Dench interpretar uma vizinha minha que todos os dias compra alface americana, alface crespa e alface roxa mas, tenho certeza, foi amante de Fidel Castro e de Getúlio Vargas na juventude, no triângulo amoroso mais polêmico das Américas.

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