Independente da letra na qual você se encaixe, não é nada fácil crescer sendo parte da sigla LGBTQIA+. Além do preconceito que te acompanhará a vida toda (aqui no Brasil, por exemplo, temos um presidente que declarou publicamente que preferia ver um filho morto a ter um filho gay), uma criança ou adolescente fora do padrão heteronormativo vai crescer vendo pouquíssimas representações de si na mídia e, dentre essas poucas representações, um número bastante expressivo de caricaturas negativas, estereotipadas ou abertamente vilanizadas.

Começo esta crítica, então, com um reconhecimento ao produtor e diretor Ryan Murphy. Suas obras têm se destacado por inserirem no audiovisual mainstream uma representação jamais antes vista dos membros dessa comunidade. De “Pose, a série com o maior número de atores transexuais da história, passando por “American Horror Story e “The Boys in the Band” (filme protagonizado apenas por atores homossexuais), todas as produções de Mr. Murphy assumem o compromisso de contribuir para uma maior visibilidade para a comunidade LGBTQI+. Dezembro é um mês propício para acarinhar iniciativas que melhoram o mundo e, nesse sentido, parabéns, Ryan Murphy.

A Festa de Formatura, mais nova produção da Netflix dirigida por RM, baseada em um musical da Broadway de mesmo nome, traz, com elenco estelar, mais uma discussão sobre o tema na obra do diretor. Uma trupe de narcisistas atores da Broadway, na tentativa de limparem suas imagens apoiando uma causa, chegam a uma conservadora cidade de Indiana para ajudarem a uma adolescente lésbica que fora proibida de levar sua namorada ao seu baile de formatura.

Ryan Murphy nunca erra nos seus elencos, fato. E esse aqui não foge à regra. Capitaneado pela única, maravilhosa, genial, hiperbólica, impecável (insira aqui outros adjetivos positivos), Meryl Streep, o cast é a melhor parte do filme. Meryl interpreta Dee Dee Allen, uma diva com dois Tonys, que, juntamente com o astro dos palcos Barry Glickman (James Corden), acaba de ter seu musical sobre Eleanor Roosevelt cancelado após a estreia graças a críticas que miram sem piedade nos gigantescos egos da dupla. Streep e Corden funcionam muito bem juntos e ela, como já estamos acostumados, arrasa, enquanto Corden consegue mostrar que os dias do pesadelo “Cats ficaram para trás. Há que se destacar que, quando você acha que não tem como Meryl Streep melhorar, ela surpreende. É notável como seus vocais progrediram e A Festa de Formatura apresenta a rainha alcançando notas que não tínhamos ouvido em seus musicais anteriores. Patroa é patroa, né?

O elenco se completa de forma excelente. O grupo “broadwayano” fecha com a Angie Dickson de Nicole Kidman, uma atriz forjada nos musicais de Bob Fosse e que ainda espera sair do coro e atingir o estrelato, e o jovem ator Trent Oliver,  egresso da prestigiada Julliard, mas que, em temporadas de desemprego, se garante como garçom. Kidman tem a melhor coreografia do longa, totalmente inspirada em Fosse, e Oliver mostra mais uma vez o porquê de, desde a juventude, ter conseguido o espaço que conseguiu no musical americano, que voz, que presença. O núcleo da cidadezinha conta com a estreia cinematográfica de Jo Ellen Pellman, que constrói uma maravilhosa e carismática Emma Nolan, a jovem lésbica em apuros, o diretor da escola que a apoia, Tom Hawkins (Keegan-Michael Key, em excelente química em tela com Mrs. Streep) e Kerry Washington, em boa performance mas ainda com momentos Olivia Pope nos quais parece que ela vai hiperventilar, como Mrs. Greene, a vilanesca e homofóbica presidente da Associação de Pais e Mestres. Todo mundo bate um bolão quando estão juntos, fazendo de A Festa de Formatura um exemplo poderoso do chamado filme de ensemble cast.

Nos aspectos técnicos encher os olhos parece ter sido a missão bem sucedida de cada profissional envolvido (ajudada, é claro, pelo orçamento generoso que é ostentado em cada cena). As belas coreografias são acompanhadas por cada movimento de grua das câmeras que fazem um cinegrafista se sentir numa montanha russa da Disney, a edição é dinâmica, cabelos e maquiagem (excetuando-se uma peruquinha muito da vagabunda que colocaram na Tracey Ullman) são de primeira. É preciso fazer duas menções especiais. A primeira vai pros impecáveis design de produção e direção de arte, coisa mais linda do mundo, trabalhando com uma paleta de tons roxos e lilases que traz outra vibe para as cenas. A segunda vai pro figurino icônico assinado por Lou Eyrich, veterana das produções de Murphy que carrega na bolsa 5 Emmys e 7 prêmios do Sindicato dos Figurinistas. Se você ainda não assistiu ao filme faça uma caça por essas peças aqui e descubra o que é um figurino icônico: suéter vermelho com plumas, capa amarela, smoking azulprateado.

Mas, nem tudo são flores (e glitter e brilho e holofotes e gente bonita e boas coreografias e Meryl Streep) em A Festa de Formatura. Há dois elefantes brancos (de um mármore caríssimo) na sala que não podem ser ignorados. De certa forma, os dois nascem do material de origem. Um está no roteiro. Com um tom totalmente feel good, ele talvez tivesse suas falhas suavizadas no palco, onde a experiência do ao vivo e do razzle dazzle da Broadway poderia amenizar a sua falta de criação de um momentum. Na versão cinematográfica, essa fragilidade fica muito evidente e você sabe que, alguma hora, alguém da sala vai soltar um “bobinho o filme, mas legal, né?”. Um pouco mais de trabalho no texto poderia ter mantido o tom festivo e evitado essa sensação de muita forma para um conteúdo tênue.

O outro problema está na base de um musical. As canções. Lindamente produzidas, requintadamente orquestradas, poderosamente coreografadas, “de tirar o folegamente” cantadas. Mas… esquecíveis. Nenhuma das músicas gruda na sua cabeça depois do filme. Sabe aquela música de musical? O All That Jazz, de “Chicago”, o Let It Go, de “Frozen? Sabe? Então, não tem. Todas elas funcionam enquanto elemento narrativo, mas não se destacam em frente aos outros – e maravilhosos – elementos cênicos da produção.

Mas não pense que você não vai gostar  – ou que eu não gostei – de A Festa de Formatura. Festivo, rico, alegre, gay. Humano. E que dá um quentinho no coração e uma vontade de sonhar com um mundo em que adolescentes LGBTQI+ possam pensar seus amores e suas vidas como um musical colorido e feliz e não como o filme de terror de preconceito, intolerância e violência que assombra a realidade de tantos deles. Ryan fez um filme de fazer sorrir e sonhar. Quem sabe a gente não começa a fazer um mundo de sorrir e sonhar também?

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