Quando eu fui escalado para escrever a resenha de A Força da Natureza, eu – mesmo indo ver o filme sem saber do que se tratava – já comecei a elaborar na minha mente todo um paralelo que eu traçaria entre o título do longa e aquele que era o único ator que eu já sabia estrelar o filme: Mel Gibson. Tendo nascido em 1982, eu fui criado com algumas grandes referências no cinema, sendo Mel Gibson, de longe, aquela de maior talento entre nomes como Stallone, Arnoldão e afins. Então eu não tenho vergonha nenhuma de dizer que adoro o Mel Gibson, que o considero um diretor até melhor do que ator e que sempre o vi como uma das poucas estrelas do primeiro escalão de Hollywood capazes de aliar talento verdadeiro a um carisma arrebatador.

Dito isso, eu vejo tudo que Mel Gibson faz. Seja como ator, seja como diretor. Não me importa o fato de ele talvez ter sido a primeira vítima da cultura do cancelamento antes mesmo disso existir porque eu não tenho 8 anos de idade e a qualidade do trabalho de uma pessoa não se mede pela sua vida pessoal. Ou não deveria. De todo modo, feita essa introdução sobre o quanto gosto da obra de Gibson, confesso que saí da exibição de A Força da Natureza um pouco decepcionado porque ele aqui, apesar de ser disparadamente a melhor coisa do filme, é também um personagem coadjuvante de uma produção estrelada por Michael Dudikoff que teria sido direto para VHS na década de 90.

Não é que o filme seja ruim, apesar de também não ser bom. Trata-se de um filme de ação genérico com alguns poucos momentos de brilhantismo, outros poucos de constrangimento e uma execução no máximo satisfatória ao longo da sua pouco mais de de hora e meia de exibição. Mas a produção em si visivelmente teve um baixo orçamento, apesar de ter nomes bem conhecidos como Emile Hirsch (de “Na Natureza Selvagem”, um dos meus filmes favoritos da vida), Kate Bosworth e a belíssima peruana Stephanie Cayo, além do Mel. Isso fica evidente quando há mais de uma cena em que ocorre um ataque animal em que a gente simplesmente não vê o tal animal. Ora, é um filme de ação e filme de ação tem que mostrar a ação, porra! Não mostraram aqui claramente porque não houve verba para o CGI.

O mesmo ocorre com algo que vem logo da sinopse da obra: em Porto Rico, uma furacão daqueles que exigem evacuação de cidades está prestes a atingir San Juan e um grupo de assaltantes liderados por um sujeito mau igual ao pica-pau resolve fazer um roubo num prédio. Ora, qualquer produção desse gênero que sequer sugira um furacão vai aproveitar para mostrar a cidade sendo devastada e tudo mais. Aqui, contudo, só temos água pra caralho caindo do céu e uma ventaniazinha de leve, com a ação se desenrolando na maior parte do tempo dentro do tal prédio.

Enfim, minha decepção com o fato de um monstro do Cinema estar sendo usado como um coadjuvante qualquer se dissipou rapidamente porque o Mel Gibson é foda. Ele aqui interpreta um policial aposentado que não tá a fim de evacuar o prédio e acaba ajudando o policial Cardillo (Hirsch) a defender os moradores dos assaltantes. Ele segue trazendo toda a sua presença, seu carisma e talento, mesmo em um papel menor e abaixo do que sua grandeza sugere, e é, como já falei, um elemento que destoa do resto da produção, elevando-a nos momentos em que aparece.

No mais, após a gente entender que é só um filme de ação que não quer reinventar a roda e que entende as limitações de seu orçamento, basta dar uma relaxada e curtir o tiroteio, o vilão caricato (ainda que vivido com a verve de sempre pelo ótimo David Zayas), o histórico verdadeiramente triste do protagonista, a trilha sonora muquirana, a boca sujíssima de todo o elenco (e isso vem de uma pessoa que usa caralho como vírgula) e, principalmente, a presença magnética de Mel Gibson.

Feito esse exercício, A Força da Natureza cumpre seu papel, apesar de talvez se mostrar como uma triste comprovação do declínio da carreira de um dos maiores nomes da história do Cinema e que há pouquíssimo tempo estava fazendo filme indicado a Oscar em 2017, o excelente “Até o Último Homem“.

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