Steven Soderbergh é um daqueles diretores que constroem uma carreira metendo o dedo nas feridas da sociedade. De “Sexo, Mentiras e Videotape, passando por “Erin Brockovich, Uma Mulher de Talento” e “Traffic, só para citar alguns, seu cinema sempre foi espaço para um olhar ora ácido, ora cético, mas sempre agudo acerca dos descalabros e mentiras do nosso mundinho. Em A Lavanderia, estreia da Netflix, ele lança sua mira sobre um dos maiores escândalos financeiros dos últimos tempos, o chamado Panama Papers, cujos desdobramentos atingiram até a Operação Lava-Jato, no Brasil.

Após um terrível acidente que matou seu marido, Ellen Martin – rufem os tambores, toquem as trombetas, ergam as bandeiras – interpretada pela única, a maravilhosa, a dona do mundo, Meryl Streep – buscando resolver um imbróglio ligado a fraudes no seguro da empresa responsável pelo fatídico desastre, irá embarcar em uma investigação que denunciará um esquema bilionário armado por dois desonestos e carismáticos advogados, Jürgen Mossack e Ramón Fonseca, atuações preciosas de Gary Oldman e Antonio Banderas. Vendendo empresas de fachada e atuando nas brechas da lei através de offshores, o Panama Papers revelou ao mundo de que maneira muito dinheiro, muito poder e, acima de tudo, ganância extrema sustentam a corrupção ao redor do globo e adubam as sujeiras do sistema financeiro.

A Lavanderia é cinema-manifesto (aliás isso vira literal no final). Soderbergh se vale de recursos utilizados pelo excelente “A Grande Aposta (2015), de   Adam McKay, e que versava sobre o mesmo universo das finanças, para construir uma odisseia cheia de recortes, cortes e frequentes quebras da 4ª parede. Com charme maligno, as personagens de Oldman e Banderas vão guiando o espectador pelas partes do filme, adequadamente intituladas “Segredos”. O prólogo em que os dois contam a história do nascimento do dinheiro e do crédito é simplesmente delicioso. Tudo isso embalado por uma edição mais que ágil, levando a produção a um ritmo bastante interessante.

O roteiro se destaca pelas frases mordazes e inteligentes. Mas seu grande mérito é conseguir tornar um assunto que poderia soar entediante ou “documental” demais em entretenimento de primeira linha. O espectador não experimenta um só momento de enfado, ainda que, por poucas vezes, se resvale em uma ou outra explicação “mastigadinha” demais.

A estrutura da narrativa também se destaca de forma muito positiva. Num caleidoscópio de histórias e imagens, o filme, nas exímias mãos de seu diretor, arquiteta uma vertiginosa passagem por lugares, personagens e falcatruas que se interligam na trilha do dinheiro e da ambição. E tomem-se doses maciças de metalinguagem, auto ironia, referências e até um momento extra de vergonha para o brasileiro quando se aborda o esquema de corrupção da Odebrecht.

Mas é no elenco que A Lavanderia atinge o auge. Steven Soderbergh trabalha com quem ele quiser e faz questão de mostrar isso. David Schwimmer e Sharon Stone, por exemplo, aparecem em pontinhas. O excelente James Cromwell também aparece como o marido da protagonista. E o elenco principal, meus deuses da tela, excedem as altas expectativas que carregam. A rainha Meryl é aquilo que todos sabemos que ela é. Impecável. Perfeita. Sua Ellen é meticulosa e emocionalmente construída. Coisa linda de se ver o desenvolvimento de uma personagem em uma atriz que é o símbolo de domínio de seu ofício. Ah, estou me segurando pra não dar spoiler mas tem uma surpresinha WTF de dona Meryl. Como os advogados picaretas Banderas e Oldman executam um bailado maravilhosos entre si, ainda que o inglês incomode um pouquinho de nada ao dar a sua personagem um sotaque que soa um tiquinho estranho e afetado em certos momentos.

No fim, A Lavanderia é cinema corajoso, cinema que se expõe. Incomoda por falar tanto sobre aspectos tão feios do nosso mundo. Entretém pela inteligência e acidez. E o combo Soderbergh/ Streep/Banderas/Oldman/Netflix deu um resultado de respeito.

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