O terror é um gênero – como falamos praticamente a cada review aqui – com um nicho certo. Geralmente, as produções são baratas e o custo-benefício para os estúdios muitas vezes se apresenta como uma mina de ouro. Após o efeito “Bruxa de Blair”, em que os gastos foram diminuídos pelo estilo narrativo do filme e ainda pegando o espectador de assalto pela forma de contar a história, muitos foram os títulos que resolveram embarcar nessa proposta. São tantos exemplos que – devo admitir – quando começo a ver uma obra assim perco, de início, o ânimo. Eis que fui ver A Maldição da Freira sem um contato prévio sequer com a sinopse e os primeiros planos denunciaram mais um filme de terror contado com câmera na mão do personagem. Mas, com o passar das cenas, o desânimo foi dando lugar à vontade de continuar seguindo com os protagonistas.

Na Irlanda, em 1960, dois padres são enviados pela Igreja para um convento que abriga freiras e jovens grávidas, para investigar o milagre que tem ocorrido lá dentro. A estátua da Virgem chora lágrimas vermelhas e o padre Thomas (muito bem por Lalor Roddy) tem como tarefa se certificar de que não é um truque vazio a chamar atenção da comunidade católica. Essa missão é seguida de perto por seu companheiro, o padre John (Ciaran Flynn), que filma todo o processo de averiguação. Ao conhecer o local, porém, ambos os clérigos testemunham a forma abusiva com a qual a Madre Superior (na medida por Helena Bereen) se relaciona em relação às demais habitantes, em especial às garotas gestantes. Tudo isso faz Thomas duvidar de que esteja em solo sagrado que possa, de alguma forma, ser palco de milagres divinos. Durante as pesquisas dos dois padres, episódios sinistros começam a acontecer e eles vão questionando o real papel daquele convento.

O que se esconde ali?

O que, a priori, havia se mostrado mais uma produção comum, utilizando-se daquele recurso tão repetido, começa a tomar contornos realistas na medida em que a diretora Aislinn Clarke consegue montar a narrativa como um verdadeiro documentário. A naturalidade das atuações e dos planos são o suficiente para trazer o espectador à força para dentro da história. Acontecimentos que não são novidade para o público fiel do terror ganham proporções muito mais sensíveis ao serem experimentados através desse formato. E, para além de meros jump scares, o roteiro vai mais longe e confronta as autoridades religiosas entre si, conseguindo pincelar críticas ao modelo retrógrado de outrora da Instituição. As relações de poder intrínsecas àquela configuração hierárquica, e que se assumem claramente sexistas, não fogem ao dedo acusador apontado com firmeza pelo discurso do filme.

O que se destaca nesta produção, em comparação às usuais do gênero, é a costura dos momentos aterrorizantes perpetrados aos protagonistas com as diversas críticas à tradição e costumes da época, mas que de alguma forma se mantém presentes neste novo século. Os personagens não são meros títeres na mão de um roteiro que se assume vazio a ponto de justificar o susto pelo susto ou o medo pelo medo. Pelo contrário, há uma sensibilidade na construção de cada um deles, dando-nos a oportunidade de conhecer seus pensamentos e atitudes, fazendo-nos ver através das capas de clérigos pessoas que convivem com suas dúvidas e descrenças, ao passo que atravessam momentos dos mais macabros em busca de sua fé, que, a despeito de qualquer reflexão, se mantém intacta.

Santos e pecadores.

Em sua estréia de longa-metragem, Aislinn Clarke escolhe um tema sutil e polêmico para falar de forma convincente e profunda. Utilizando-se de meros 500 mil dólares (o que denuncia uma produção de baixo-orçamento), a diretora veste sua narrativa com as vestes do terror para abordar claramente as diferentes formas do horror promovido pelo ser humano. Este que insiste em negar sua centelha divina para permanecer como um portal do diabo, a ser atravessado diariamente.

“Santos e pecadores, algo deseja que sejamos o senhor das moscas” (Harris/Gers).

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