Após a bela série “A Maldição da Residência Hill“, Mike Flanagan (conhecido por seus bons títulos de terror) volta a uma mansão (com parte do elenco da série anterior) para nos trazer novo conto de terror, dessa vez baseado nas obras de Henry James. Aliás, quem viu lançado no mês passado no TeleCine o filme “Os Órfãos” e não prestou atenção que, em ambos, o roteiro é inspirado na obra “A Volta do Parafuso”, pensou imediatamente se tratar de plágio. Mas não. É uma adaptação nos dois casos. No entanto, filme e série enveredam por caminhos diferentes, apesar de seus elementos muito semelhantes.

Em uma festa de pré-casamento, uma mulher mais velha começa a contar uma “história de fantasmas”. E, com sua narração, somos tragados para dentro da mansão Bly, assim como todo e qualquer um de seus personagens. Dentro dela, muitos protagonistas e muitas outras histórias compõem a historicidade daquelas paredes. Quem nos conduz até lá é a au pair Dani (Victoria Pedretti), americana fugindo de seu passado e há poucos meses no Reino Unido. Ela aceita o emprego de cuidar de um casal de crianças, Miles e Flora, que perderam os pais e vivem na mansão, afastados de todos, tendo como companhia tão somente o cozinheiro Owen, a governanta Senhora Grose e a jardineira Jamie. Dani é a substituta da antiga professora, que sumiu misteriosamente na mansão (ou fugiu com seu namorado, antigo assessor do milionário tio dos órfãos). E uma vez lá, fatos misteriosos começam a mexer com a mente de cada um dos moradores daquela habitação.

Almas escondidas nos cômodos.

Durante os quatro primeiros episódios, a série segue um tanto quanto morna, sem apaixonar, mas também sem nos permitir rejeitá-la. Não tão “aprisionante” quanto a Residência Hill, os contos por trás da mansão Bly são interessantes, mas a partir do quinto episódio a coisa toma uma outra proporção, virando tudo para o alto e nos deixando mais e mais intrigados. Cada capítulo começa a surgir com a história pregressa dos seus personagens, seus dramas, seus traumas, seu íntimos, desnudando cada um deles e enriquecendo tanto a obra quanto a narrativa. Para além das aparições sombrias (que nesse caso nem são tão aterrorizantes), o foco de Flanagan, mais uma vez, é a relação pessoal. A família tem importância gigante em suas obras, sendo o palco do terror mero pano de fundo para o desenvolvimento do íntimo de cada um ali envolvido. Aos poucos, a “moça do lago”, que surge noite após noite para aterrorizar os habitantes da mansão vai tomando tão menos peso quanto mais somos mergulhados na história dos que orbitam a casa. Passos de almas penadas ou vidas penadas se equivalem naqueles corredores, sendo a vida passada ou presente de cada qual uma espécie de purgatório a ser superado.

Se na Residência Hill Mike Flanagan conseguiu dosar bem cada gênero, caminhando com sutileza por entre eles, trazendo a importância das histórias de seus personagens, ao mesmo tempo em que o terror se fazia presente, seja enquanto alegoria, seja enquanto elemento intrínseco da narrativa, na mansão Bly ele investe menos nesse estilo e mais nos dramas de cada um. Aqui, é um misto de terror, drama, mistério e até mesmo romance. Apesar de tentar repetir a dose de seu antecessor, parece-me que aqui a coisa foi feita com um tanto menos paixão, talvez. De modo que o interesse que a obra desperta, apesar de ser grande, não é imperativo; não nos engole, tal qual a mansão-palco de tragédias. Apesar disso, a locação funciona perfeitamente enquanto ilustração da vida, visto que todos ali, vivos ou não, estão presos àquele solo, vivendo seus infernos pessoais, em uma tentativa (para alguns) vã de atravessar aquilo e se ver livre, ao menos uma vez que seja.

Almas dentro de almas, casas dentro de casas.

Apesar da comparação (o que não gosto de fazer, mas é inevitável visto ser muito semelhante ao anterior e do mesmo autor), A Maldição da Mansão Bly tem seu charme, seu impacto e é bem realizado. Que não seja vendido como terror pelo terror ou consumido tampouco com esse intuito, mas como uma história de drama ou, na verdade, de amor (como na fala de um de seus personagens), na qual há também fantasmas (e toda história de amor não sempre tem um?), então a nova série de Mike Flanagan certamente irá te trazer para dentro daquelas paredes frias, sombrias e constantes, fazendo-te mais um daqueles seres errantes a caminharem pelos longos corredores que sussurram.

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