Outro dia mesmo – na crítica de um dos maiores equívocos já disponibilizados pela Netflix, o mexicano “Penalidade Máxima” – eu estava falando sobre como a máxima de que “o cinema nacional é uma merda” é uma falácia disseminada por pessoas que generalizam toda uma gama variadíssima de criadores e artistas baseados exclusivamente em obras com a profundidade de um pires, e ignorando obras-prima absolutas como “Lavourarcaica”, para mencionar um dos menos conhecidos pelo grande público, ou “Cidade de Deus” e “Tropa de Elite” para ficar em obras de alcance tão grande quanto as comédias do Leandro Hassum.

Este mesmo povo gosta também de generalizar o cinema francês, ainda que tenha visto quase nada dele, também dizendo que este é uma merda, mas por razões completamente opostas às do cinema nacional. Tratar-se-ia de um cinema “metido à besta”, para “intelectuais de esquerda”, com “gente arrogante” e “tramas existencialistas” inalcançáveis. Estes cometem com o cinema da França o mesmo erro cometido com o do Brasil ao generalizar tudo baseados nas obras popularescas do Brasil ou nas poucas obras autorais do cinema francês que chegam aos cinemas brasileiros.

Felizmente, a Netflix está aí não só para nos trazer as desgraças produzidas no cinema mexicano como o já citado “Penalidade Máxima“, mas para também desmistificar o cinema francês com esta bobagem verdadeiramente bobagenta e nada divertida que é “A Mansão“, mostrando que a produção popularesca do mundo todo é, via de regra, uma porcaria. Nossa visão a respeito é turva justamente porque, antes do advento do streaming, nenhum distribuidor arriscaria trazer ao Brasil uma obra que só talvez (e bota talvez nisso) funcione com o público alvo do país onde foi lançado. Agora, contudo, um sonoro foda-se para isso ecoa pela internet com a disponibilização de “A Mansão” no país e do verdadeiramente ENORME quantidades de filmes turcos lamentáveis no catálogo da Netflix.

A sinopse é das coisas mais lugar-comum que se vê em filmes de terror do estilo slasher. Alguns jovens de seus 20 e poucos anos resolvem ir passar um final de semana em uma casa isolada do resto da civilização na qual não há sinal de celular. E é sem medo algum de dar spoiler que eu continuo dizendo que, é claro, merda acontece e os jovens vão morrendo um a um. Esta é a premissa de quase todo filme do gênero, mas aqui os realizadores se propuseram a apresentar seu “pulo do gato” ao brincar com os clichês do gênero e tentar fazer uma comédia.

Durante cada um dos longuíssimos e dolorosos 100 minutos de exibição, o longa vai tentando brincar com coisas como o negro engraçaralho da rola grande ser ou não o primeiro a morrer, o personagem maconheiro que parece viver em outra dimensão de tão chapado, a menina tímida que potencialmente esconde um grande segredo… Enfim, vocês já entenderam.

Não fossem a relativa competência nos aspectos técnicos da obra (trilha sonora interessante e desenho de produção acertadamente kitsch) e alguns momentos de comédia absolutamente bestas protagonizados, sem exceção, pelo maconheiro e pelo moço da pica grande, esta seria uma perda completa do meu e do seu tempo. Não é de se espantar que boa parte do elenco seja de youtubers e personalidades da mídia francesa nesta que talvez tenha sido a versão croissant do filme nacional que já nasceu crássico: “Internet – O Filme”.

No final, temos um filme de terror que não assusta em momento algum e uma comédia que não tem a menor graça. É possível, contudo, que as piadas contidas no filme tenham feito algum sucesso com seu público alvo francês, mas, a julgar pelos artigos de lá a respeito, parece que não. Não é só de Truffaut, Godard e Meliés que vive a indústria do cinema francês e desmistificar isso para o público é o maior e talvez único mérito desta película.

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