* Com colaboração de Rene Michel Vettori

Há, ao que tudo indica, um forte movimento no Cinema mexicano atual em que jovens e criativos cineastas, contra tudo e todos, fazem seus filmes de gênero em esquema de guerrilha, sem verba, sem apoio e somente com muita, mas muita vontade mesmo de fazer Cinema. Não sou aqui um erudito ou um estudioso do assunto, é apenas uma impressão fortíssima que me é passada pela enxurrada de obras de horror/terror e ficção científica que vêm surgindo daquele país. Um bom exemplo disso é a coletânea México Bárbaro, que em seu segundo volume teve um conto dirigido e escrito por Diego Cohen, o cineasta responsável por este A Marca do Demônio.

Em que pese o quanto é salutar que pessoas façam a arte pela arte, que artistas não vejam qualquer alternativa para expressar seus anseios e visões que não pela arte e que o façam sem a menor expectativa de retorno financeiro e, principalmente, sem verba com a qual conseguir realizar uma obra dentro dos padrões técnicos que todos nós, consumidores da forma de arte que é o Cinema, viemos a esperar, A Marca do Demônio é uma desgraça de filme, ainda que conte com uma premissa interessante.

Nele, temos a história de Karl (Eivaut Rischen), um sujeito possuído por um demônio, que anda pela Cidade do México com um visual claramente inspirado no londrino Constantine dos quadrinhos (quem caralhos anda por aí de terno com coletinho e sobretudo num lugar quente como é o México?), às voltas com uma nova possessão na jovem Camila (Arantza Ruiz). Ele trava um embate eterno contra o demônio que ele carrega dentro de si com a ajuda do padre Tomás, que também carrega um outro demônio, mas esse é bem mais contemporâneo e nada sobrenatural. A premissa é: um sujeito possuído por um demônio que caça outros demônios. Interessante, é claro, mas a execução e o desenrolar dessa narrativa pecam demais.

Para começar, o filme inteiro é um desastre técnico. Se Isaac Ezban – um dos diretores aos quais me referi no primeiro parágrafo – consegue fazer muito com pouco nos estupradores de mente “O Incidente” e “Os Parecidos” (indicados no segundo e terceiro Garimpos Netflix Sci Fi), Cohen não tem a mesma sorte aqui. O longa parece todo ter sido filmado com um celular, em resolução baixa, com um tratamento fotográfico ruim e uma edição desastrada, em especial nas cenas de ação em que Cohen quer claramente fazer muito mais do que o que seu orçamento lhe permitiria ao usar cortes rápidos que confundem demais as cenas.

Pior ainda é o som. A sonoplastia é horrível, com sons que simplesmente não são replicados ou o são de forma amadora, com uma trilha incidental que parece ter sido retirada diretamente de algum jogo merda de videogame de terror e o próprio tratamento de som é ruim, sendo muito difícil acompanhar as coisas que são ditas na tela. É um problema que se torna ainda mais sério quando acontece em um filme de terror, que precisa demais de um som de primeira qualidade para poder construir a atmosfera, especialmente quando este filme tenta se valer dos famigerados jump scares, como é o caso aqui.

Na mesma toada segue a direção de atores que, à exceção de pouquíssimas cenas, traz interpretações canastronas que são também em muito prejudicadas por um roteiro que não desenvolve personagem, mas parece tão somente existir para que haja um embate final entre duas forças do mal, sem qualquer preocupação com enriquecer a narrativa.

De bom mesmo, temos a evidente raça e o amor de Diego Cohen pelo fazer cinema e a criatividade de sua interessante premissa do homem que luta conta seus demônios, trazendo uma clara alegoria com a nossa luta diária contra os nossos próprios demônios, às vezes perdendo, às vezes vencendo, tal qual o protagonista. É necessário aplaudir a iniciativa e a paixão de Cohen pelo Cinema, mas não há como ignorar os diversos e crassos erros trazidos nessa obra, repetindo o diretor os mesmos e muitos erros que cometera em sua outra película disponível na Netflix: “Romina“.

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