Joe Wright é um diretor que tem belíssimas obras em sua filmografia. E, apesar de percorrer gêneros diferenciados em alguns de seus títulos, uma característica marcante de suas produções é a introspecção dos protagonistas. A forma como Wright vai descascando seus personagens, desvendando suas intimidades e expondo completamente seus traumas é sempre um dos pontos mais positivos de seus filmes. O novo lançamento da Netflix assinado por ele repete esses bons elementos em um thriller dramático envolvendo crimes e contando com um maravilhoso elenco: A Mulher na Janela.

Anna (pela incrível Amy Adams) é uma psicóloga que sofre de agorafobia, isto é, não se permite sair de casa, por medo de locais que possam surgir como eventuais ameaças a si. Isso começou após um trauma que nos vai sendo desvendado ao longo da narrativa. Sem ter muito o que fazer, tendo como companhia apenas seu gato e um inquilino que vive no porão de sua enorme casa, ela tem o costume de vigiar a vida de seus vizinhos, tal qual o protagonista do inesquecível suspense de Hitchcock “Janela Indiscreta”. Mantendo semanais encontros com um psiquiatra, Anna se mostra muito mais próxima de um descontrole total do que de uma possibilidade de vencer o bloqueio que a assola. Sua vida que balança no fio da navalha é chacoalhada fortemente após testemunhar uma cena de esfaqueamento na casa de seus novos vizinhos de frente. A partir daí, uma trama rocambolesca vai envolvendo tanto Anna quanto nós, espectadores, em um jogo de idas e vindas de uma mente que não pode confiar em si mesma.

Olhos que veem além.

Há narrativas semelhantes a esta, acerca de um protagonista que sofre de algum distúrbio e que, até algum momento, somos levados a acreditar piamente em tudo o que se passa à nossa frente. Esse mundo, porém, sofre uma desconstrução quando algo nos é revelado acerca dele. Em A Mulher na Janela a proposta, de cara, é diferente. Em absolutamente nenhum momento estamos confortáveis com as sequências testemunhadas por Anna, por sabermos de antemão que sua fragilidade emocional e psicológica jamais nos dá qualquer aval para que nos fiemos à sua própria narrativa interior. Ou seja, estamos em meio a uma história que nunca sabemos se realmente está acontecendo ou se é uma expressão distorcida de alguém à beira da insanidade. E isso é importantíssimo para criar uma relação ainda mais forte entre espectador e obra. Passando boa parte do conto tentando se apegar a algo de real, quem assiste fica envolvido definitivamente à espera do que advirá.

Outro ponto bastante impactante da obra é contar, de uma só vez, com Amy Adams, Gary Oldman, Julianne Moore e Anthony Mackie, uns tendo muito tempo de tela, outros bem menos. Mas todos impecáveis. Desde o sorriso cheio de mistérios de Moore ao olhar ameaçador de Oldman, passando pelas expressões de dúvida e fragmentação plena de Adams, os atores ajudam a carregar a história em seus corpos e vozes. A teia que vai e vem, que liga pedaços perdidos no espaço e no tempo, é muito bem tecida por Joe Wright, que sabe por onde caminhar, o que revelar e o que guardar para, no momento certo, apresentar. A introspecção comum às suas obras é tão mais evidente aqui, utilizando o cenário para dialogar diretamente com o pessoal de sua protagonista; sendo, portanto, o casarão com suas marcas de deterioração inicial a própria composição do emocional de sua proprietária.

O que é real?

Ainda que o título se apresente como uma obra mais comum de um acervo de thriller, a forma como se utiliza desses elementos familiares é o que a diferencia de seus similares. O esmero peculiar de Wright e as atuações sempre marcantes de seu elenco seriam suficientes para colocar a produção em uma prateleira diferente. Mas, mais do que isso, a própria proposta narrativa também surge como mais interessante: adentrar em uma obra que sequer a protagonista se apresenta como único porto-seguro do espectador é ter certeza de que está garantida uma viagem bem mais visceral e irreal para um espectador ávido.

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