Julien Leclercq é um diretor francês muito direto – o que não é comum entre os realizadores daquele país. Velho conhecido nosso, é o autor de “Carga Bruta” e “A Terra e o Sangue“, filmes que mesclam drama em sequências de ação, focando sempre na violência civil. Se nos dois citados o diretor caminhou pelo mosaico sócio-cultural francês atual, contando com personagens no papel de imigrantes, dessa vez em A Sentinela ele tem como protagonista uma mulher saída da “guerra ao terror” para integrar a “Operação Sentinela” em sua própria nação.

Este programa não é uma ficção, mas uma realidade francesa há alguns anos. Um grupo de militares ronda pelo território do país à procura de supostos atentados nos derredores. Não são, porém, como a Polícia Militar do Rio de Janeiro, convocada desde o resgate de um gatinho preso em uma árvore alta até a troca de tiros direta com o poder paralelo, em tons de guerra civil. Os sentinelas estão nas ruas única e exclusivamente no combate aos atentados que a França pode sofrer. Mas para Klara (em boa atuação de Olga Kurylenko) a situação é um tanto mais diferente. Isso porque ela é uma “rata de guerra”. Acostumada a carregar sozinha seus traumas no combate direto aos muçulmanos radicais extremistas, sendo treinada para ver uma ameaça em qualquer gesto mínimo, ela não consegue separar a nova realidade em suas terras do que vivera no Oriente Médio. Sendo assim, ela se confunde a todo instante em sua perspectiva, portando-se como se lá ainda estivesse. No entanto, quando sua irmã sofre um abuso sexual, Klara quebra todas as regras da sua farda para fazer, no melhor estilo guerrilheira, a velha justiça com as próprias mãos.

Guerra em todos os lugares.

Julien Leclercq repete sua forma cinematográfica, utilizando-se do mesmo estilo dos títulos supracitados. No entanto, dos três aqui analisados, considero este o seu melhor. Ele continua direto, sem fazer rodeios, apresentando-nos a trama com objetividade e depois mergulhando em seu desenvolvimento. Leclercq é francês e faz filmes sobre a França, mas ele foge – e é ótimo que assim permaneça – aos cacoetes de seus conterrâneos. Ele não faz pausas para discussões pseudo-intelectuais acerca da sociedade francesa; ele não cita, através de seus personagens, Proust ou Sartre ou Foucault. Ele não quer causar por causar. Não o faz e não é por falta de profundidade. Aliás, naquilo a que se pretende, A Sentinela é profundo o suficiente. Consegue falar da forma estúpida e bárbara com a qual os europeus tratam os árabes (sendo tão extremistas e radicais quanto estes), abordar o pré-caos social com o qual a França flerta, falar de violência urbana, violência sexual e corrupção em acordos internacionais que favorecem sempre os grandes figurões. E tudo isso sem um absurdo e desnecessário academicismo que enche “las pelotas” de qualquer um em situações como estas. Julien está atento a todos esses problemas urgentes de qualquer país do mundo ocidental e suas denúncias vêm através da força de suas imagens em movimento. E é isso que o Cinema é.

Aliado a isso, temos na parte técnica algumas belas realizações. A fotografia de Brecht Goyvaerts é qualquer coisa de sensacional e logo na primeira sequência o filme capta seu espectador fazendo-o refém sem chances de fuga. Olga Kurylenko também consegue nos passar toda a sua tensão e angústia com expressão corporal, olhares e respiração. A direção de Julien Leclercq é muito segura e parece ter amadurecido, conseguindo atingir tudo sobre o que deseja falar sem se perder ou sem ficar raso em cada proposta. Talvez o ponto mais negativo desta obra seja na construção de seu vilão, aquele de quem Klara quer se vingar. Não há nuances, não há camadas mais delicadas em sua lapidação. É uma peça bruta que está ali só para representar o ódio do espectador e de sua protagonista. E, além de tudo, é russo (seria mais um desses flertes dessa nova e sem sentido “guerra fria” que recriaram? Quero acreditar que não). Tirando isso, o filme segue todo muito constante, mas em uma frequência acima, de tensão a cada instante e de ação dramática em todas as sequências. É uma marca do diretor.

A guerra interior.

Os pontos altos da obra, apesar dos negativos, talvez justifiquem ser o TOP #1 da Netflix Brasil na semana. É um filme que agrada a quem quer assistir uma boa ação, mas também àqueles que querem mais profundidade e denúncias sociais. Dessa vez, o francês acertou em cheio, conseguindo falar sobre muitos temas, de forma sincera e firme, promovendo uma realização com cenas memoráveis e com uma tensão que vale à pena investir. Um filme maduro, sério e que merece ser visto.

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