Existe algo mais adorável do que um filme que se passa na Inglaterra? Sim, existe: um filme que se passa na Inglaterra no final da década de 40. Todo o charme de um país que me é xodó, reconstruindo-se dos ataques nazistas e culturalmente efervescendo em música, literatura e graciosidade… Somos presenteados por tomadas em Londres e na pitoresca Ilha de Guernsey, que fica pertinho da França, que, assim como Londres, foi bombardeada durante a 2ª Guerra. Além de um interessante recorte histórico, temos algo que também é de saltar aos olhos: a história de uma mulher bem independente pros padrões da época, Juliet Ashton (Lily James), escritora literária que começa a conquistar seu espaço ao sol com seus livros.

É certo que o filme adota um desenrolar meio alternativo para a época, por razões de coerência com o criado universo otimista (e não muito preciso historicamente falando) em que uma mulher não só é bem sucedida e reconhecida como escritora, como é tida como referência pra um homem de outra cidade. Uma vez aceita a falta de compromisso histórico em relação à gênero, e não somente à 2ª Guerra Mundial, torna-se muito fácil apreciar uma narrativa doce, bem temperada e encantadora.

Juliet na Foyles (!) num meet & greet com seus fãs.

O homão da porra Dawsey (Michiel Huisman) começa a se corresponder por cartas com Juliet, já que na época não tinha Tinder. E como na época essa coisa de sexo casual também não estava muito em alta, a conversa dos dois começa branda, sem nudes ou coisa do tipo; trocam ideias sobre literatura inglesa, a ponto de despertar tanto o interesse que Juliet decide ir ao encontro desse rapaz. No entanto não nos esqueçamos que ela não é uma garotinha ordinária, é uma escritora. Logo, a razão de sua viagem é não só a identificação intelectual com Dawsey mas a perspectiva de inspirar-se com a história contada por ele, de um inusitado grupo de leitura chamado Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata na Ilha de Guernsey.

A razão pela qual o filme me cativa não é a construção de personagem masculina amável, ideal e tolerante – apesar de que isso é uma mão na roda – mas sim como a história, que inicialmente ameaça ir pro lado romântico por inteiro, mostra-se muito além de dois pombinhos se apaixonando. Juliet se apaixona também por Elizabeth (Jessica Brown Findlay), a fundadora do clube de leitura, e tal admiração não está relacionada à romance e sim à inspiração que a figura da mulher traz. Basicamente, o filme conta a história de uma mulher valorizando a outra, o que é lindo. De quebra, como um bônus, temos o moço gracinha, o que tá bom também.

A Sociedade Literária da Tarte de Casca de Batata reunida com a chegada de Juliet… e é claro que a torta de casca de batata não poderia faltar!

Confesso que caí na tentadora armadilha de torcer para os dois ficarem juntos e toda esse apelativo gatilho que eu vivo falando mal e evitando com todas as minhas forças. Mas minha casca dura pseudo-durona não aguentou dessa vez – se é que aguenta em alguma – e ao final do filme lá estava, derretida, acreditando no amor ainda que por alguns minutos, idealizando pateticamente alguém a la Dawsey. Atribuo isso como coisa positiva do filme, já que significa que fui capaz de imergir na história e me permitir, ainda que com vergonha no final, a ser parte daquilo ali. Fora a isso, vale falar da natureza paradisíaca da ilhota, que me fez ter vontade de ir pra meio de lugar nenhum perto da França.

A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata é um filme bem feito, formoso e envolvente. Não se propõe a grandes inovações e é em sua simplicidade que triunfa seu maior acerto: a honestidade de uma produção de Cinema. Adaptado de um livro, parece manter-se fiel e trazer as principais características das autoras Mary Ann Shapper e Annie Barrows em sua obra: uma voz notoriamente feminina, um retrato dos escombros do pós-guerra e um romance suave e bem equilibrado, incapaz de anular o restante da história como erroneamente acontece com filmes/livros de romance por aí.

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