Eu sou geógrafo de formação e especializado em geomorfologia (que estuda a forma atual do relevo) e educação ambiental. Contudo, muito antes de entrar para o magistério e ensinar que a Terra é arredondada – como a representação gravitacional do planeta num geoide – eu já sabia que para o mundo que nos cerca funcionar apropriadamente ela PRECISA ter essa forma. Agora, se você já é alfabetizado ou tem mais de 5 anos de idade e é um terraplanista, espero que você tome muito no seu cu nessa vida. Diferente das pessoas que advogam que não ocorreu o holocausto, que vacina causa autismo, que nada tá acontecendo na Venezuela e que o nazismo é de esquerda – quase tudo com algum viés político e/ou ignorância popular e falta de estudo – acreditar que a Terra é plana faz da galera que afirma que não pisamos na Lua PHDs em astrofísica.

É tão inacreditável que ofende o bom senso e a nossa espécie. Algo que não deveria ser sequer contestado e já provado inúmeras vezes há séculos mostra quão imbecil o ser humano pode ser e não ficaria surpreso se junto com o criacionismo isso também entrasse na disputa para ser ensinado nas escolas daqui uns anos. É uma ignorância tamanha que o “proeminente” líder da Organização da Terra Plana enche o peito e fala com orgulho que “O motivo de estarmos vencendo contra a ciência é porque eles só falam de matemática”. Valeu, campeão. Você é o melhor exemplo que falhamos como espécie.

A impressão que tive ao assistir A Terra É Plana foi a de estar vendo um grupo de neandertais que não compreendem noções mínimas e básicas sobre o mundo a sua volta, explicando com suas crenças místicas como o planeta realmente opera. Pensar que uma sociedade consegue produzir esse tipo de crença em pleno século XXI é confirmar que ela é digna de extinção. Como combater males maiores como o aquecimento global, fome e epidemias se ainda estamos debatendo algo que possibilita o seu dia-a-dia de funcionar?

Enfim… agora que eu tirei isso do meu sistema, vamos focar aqui no que interessa, que é como o documentário aborda o tema. E, meus amigos, que agradável surpresa foi assistir essa obra. O meu receio era de ser uma propaganda terraplanista, o que evidentemente não é, mas também não chega a ser um escrutínio massacrante das crenças desses ilustres senhores. A grande sacada da direção Daniel J. Clark foi manipular nossos – e entenda “nossos” como pessoas que sabem que a Terra é esferoidal – sentimentos para olharmos com desprezo para os defensores dessa “teoria” absurda. Temos toda uma construção dessa loucura encabeçada por Mark Sargent, líder desse movimento crescente, explicando a história do pensamento terraplanista e mostrando “evidências” que de fato estamos num disco plano no centro do universo.

E assim como em todo grupo, o documentário mostra as dissidências internas, com propostas de outros modelos da Terra plana e outros líderes lutando por controle do movimento. A forma como cada facção tenta desacreditar a outra beirava a insanidade, literalmente. E começou lentamente a me forçar a olhar de uma forma diferente para esses “teóricos”. Eles se desprezavam tal qual eu desprezo todo o movimento, mostrando que mesmo advogando por insanidades, essas pessoas possuíam momentos de clareza. Porém, em algum momento do processo cognitivo/psicológico delas, especialmente quando eles realizavam experimentos de fato científicos que comprovavam que a Terra é esferoidal e que gira em torno do sol e do próprio eixo, você percebe que a verdade não importa. Eles preferem ajustar a realidade para atender suas crenças do que aceitar o mundo como ele realmente é e sair da própria bolha. E ao ter essa noção disso, percebi que advogar a Terra ser plana é apenas mais uma desculpa para um grupo de pessoas buscando conexão humana existir, tanto quanto nós que vivemos em nossas bolhas de “petralhas” e “bolsominions”. A verdade não importa, o que importa é o que acreditamos.

E assim como você bloqueou todos seus amigos e parentes que não pensam igual a você, os terraplanistas também são polarizados, intolerantes e estão relegados às margens da sociedade. Honestamente, você conseguiria manter qualquer tipo de relação com alguém que acorda, olha pro céu e pensa que na beirada do planeta (lembre, ele é um disco) existe uma parede de gelo igual a muralha de Game of Thrones (aproveite e veja nosso Especial da 7a Temporada)? Eu acharia bem difícil. Embora tenha me despertado muita indignação no seu terço inicial, A Terra É Plana foi um verdadeiro exercício de empatia e tolerância e me lembrou uma conversa que eu tive com um ex-amigo (ai ai… essas divergências) quando eu estava indignado por ele não saber nadar e viver em uma ilha. A sua resposta não poderia ser mais representativa… “de dentro não parece uma”. A visão do outro é sempre difícil de assimilar e aqui não é diferente.

No mais, a obra ainda segue o padrão. Temos os terraplanistas de um lado e os cientistas do outro tecendo seus comentários e mostrando quão fantasioso é acreditar que o mundo possa ser plano. Aliás, que jogada baixa e genial da trilha sonora. Sempre que alguém do movimento estava explicando suas “evidências” lentamente subia aquelas músicas de circo ao fundo e que caía como uma luva na cena, me fazendo rir em diversos momentos.

E é isso que esse documentário propõe e faz com muita competência, ele te diverte, deixa puto, incrédulo e, até certo ponto, nos faz questionar se o que advogamos corresponde com a realidade que nos cerca. Mas não se engane, ainda quero que todos os terraplanistas tomem muito no cu e que você assista a esse maravilhoso documentário que só prova que o ser humano precisa ficar confinado nesse planeta (que é redondo, seu filha da puta!) enquanto ele vira uma bola quente de merda e esperamos pela nossa extinção.

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