“A dor da gente não sai no jornal” canta Chico Buarque. Nem as nossas alegrias, nossas saudades. Mas, se os periódicos rejeitam a magnitude das vidas comuns, o cinema as eterniza e mostra a beleza e a amplitude que há em qualquer existência. Até nas que não percebemos. Estreia da semana e candidato brasileiro a uma vaga nos Oscars, o belíssimo A Vida Invisível, de Karim Aïnouz, emociona tanto pela beleza quanto pelo requinte.

Aïnouz é um dos nossos diretores de visão e arquitetura visual mais marcantes. Seus trabalhos, da estreia em longas com o arrebatador “Madame Satã”, passando pelos fortíssimo “O Céu de Suely” e o poético “Abismo Prateado”, são reconhecidos pelos traços marcantes de um diretor de assinatura. Deles, o incômodo reflexivo despertado por cada um de seus filmes não se fez ausente em sua mais recente produção.

No Rio de Janeiro de 1950, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler) são duas irmãs em uma tradicional casa, com um pai  conservador (António Fonseca) e uma mãe submissa (Flávia Gusmão). Ambas têm um sonho. Enquanto Eurídice deseja se tornar pianista profissional, a apaixonada Guida deseja  viver uma gigantesca história de amor, cuja realização acha que encontrou nos braços de um marinheiro grego com quem resolve fugir. Expulsa de casa pelo pai, depois de retornar da malfadada empreitada, as duas irmãs se separam, mas se buscam por toda a vida, em tempos que se desdobram até os nossos dias. Nessa busca, cada uma, com a “dor e a delícia de ser o que é”, precisa tomar posse da própria vida, enquanto anseiam pelo reencontro.

Karim define o seu filme como um “melodrama tropical”. E a definição é perfeita e justa. Valendo-se dos recursos do gênero (revivido com toda força na contemporaneidade por diretores como Pedro Almodóvar e Todd Haynes), ele constrói uma narrativa que se fortalece tanto das peripécias inerentes ao modelo, mas, principalmente, do impacto visual dos trópicos. A Vida Invisível é um filme de corpo, de suor, sangue, vento. Não à toa, várias cenas são perpassadas por folhas, plantas, árvores, florestas. É a natureza primal do Brasil reforçando a visceralidade da história.

Dessa forma, e apoiadas por uma fotografia irrepreensível de Hélène Louvart, cada cena se localiza espacialmente com uma paleta de cores e uma mise-en-scène que evoca forte quadros de arte realista, principalmente de telas de Gustave Coubert e Honoré Daumier. As imagens, porém, vão, ao longo dos 139 minutos e mais de seis décadas, sofrendo uma interessante e bonita metamorfose, que se reflete, além de na fotografia, na direção de arte e nos cenários, nos bem-cuidados cabelos e maquiagem do longa: os tons vão mudando, partindo da soberba estilização do início para uma sensível naturalização quando a narrativa pousa em 2019. Coisa linda.

A edição também funciona ricamente. O ritmo é algo que passeia entre o ágil e o reflexivo, o visual e o psicológico. É incrível como aqui o trabalho de montagem colabora tão fortemente na recepção do longa. São quase duas horas e vinte minutos que respiram organicamente, inspirando e expirando, através de cortes e junções impecavelmente executados. Ah, impossível não citar nessa “respiração” do longa a pungente trilha sonora de Benedikt Schiefer.

Um outro ponto alto de beleza de A Vida Invisível é a forma como o roteiro se mobiliza para criar laços tanto narrativos como com o espectador. O conflito de irmãs separadas, tão explorado pelas novelas (dá-lhe melodrama!), ganha no longa uma força de identificação com o que temos de mais humanos. É um texto que bebe na fonte ancestral das artes e, da Grécia Antiga, resolve nos nossos dias reacender os conceitos originais de mimesis e katharsis. Nota pessoal, leitor MetaFictions: no dia em que fiz a cabine de imprensa desse filme, após a sessão, encontrei minha melhor amiga-irmã que, naquele dia, me comunicou que já havia uma data para a sua mudança para a Inglaterra. Na confluência da arte e da vida, Eurídice e Guida se manifestaram nessa vida invisível aqui. E o filme é assim, cria laços com quem vê (e, para minha felicidade, vivo na época em que tecnologia diminui separações. Te amo, sis <3).

A produção é, também, feminina na potencialidade mais fértil do termo. A Vida Invisível é um filme de mulheres. As duas irmãs manifestam o caminho da mulher em um mundo que tenta o tempo todo sufocá-las. Abraça-se, então, um discurso que é político ao deixar claro o quanto o pessoal é político. Eurídice e Guida são afastadas pelas mães pesadas de um masculino esmagador. Os homens do filme, seja no pai autoritário ou no marido ao mesmo tempo patético e abusivo (Gregório Duvivier em inspirada performance), são únicos e arquetípicos, pois suas vozes são representantes de um poder. Ao mesmo tempo, as duas irmãs em suas trajetórias (com uma menção especial ao trabalho de Bárbara Santos como Filomena, amiga e “salvadora” de Guida) são gritos do poder de resistência do feminino e dos (des)caminhos humanos para sobreviver a abusos e manter uma mente são em um mundo cada vez mais louco.

Mas é na entrega de suas atrizes principais que a vida se torna mais que visível. Carol Duarte e Julia Stockler são duas atrizes completamente lançadas no poço profundo de suas personagens. Duas atuações grandiosas, adjetivo que se espraia em vários aspectos de seus trabalhos, poderosas. Duarte traz para Eurídice uma força que se instala nos olhos. Suas cenas tocando piano, nas quais a música atua como resistência catártica aos abusos de mais variadas formas, hão de entrar na memória do cinema nacional. A Guida de Stockler constrói um olhar que, ao longo dos anos e dores, vai cedendo o espaço do fogo apaixonado do início para uma força triste de quem é, acima de tudo, uma sobrevivente. Aliás, o trabalho das duas torna acertada a escolha da produção em substituir o título original do romance e pelo qual o filme chegou a ser referido por um tempo, “A Vvida Invisível de Eurídice Gusmão”, pelo nome pelo qual ele é atualmente chamado.

Por fim, Karim Aïnouz dá ao mundo um presente que nós brasileiros, apesar da sordidez de um imbecil cujo nome não cito porque não se citam idiotas, temos a honra de ver enchendo o mundo de talento. Fernanda Montenegro assume a personagem Eurídice na velhice e, caro leitor, nessa hora você sabe porque ela é, sem dúvida, uma das maiores atrizes de todos os tempos. Cada minuto dela em tela é o epíteto da sensibilidade, da força e da plenitude cênica. Ao mesmo tempo em que sua atuação cria um lindo jogo com o par de atrizes que lhe entrega a história.

Belo, forte, competente, sensível e, acima de tudo, humano. A Vida Invisível é um representante imponente de um ano tão contundente no cinema nacional.

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