Após a semana da grande estréia dos super-heróis, você pode até se sentir um tanto quanto abandonado por títulos de grande expressão, do “circuitão”, os blockbusters. E, mais ainda, se você estava à espera da grandiosa produção de semana passada e ficou ou frustrado ou com gosto de quero mais, eis que nesta quinta-feira de ausências dos grandes estúdios um filme pode satisfazer esta sua necessidade. Vindo diretamente da Coréia do Sul, A Vilã é um daqueles filmes de ação de tirar o fôlego, com cenas estonteantes e de grande qualidade técnica. Mas a obra é mais do que isso.

Byung-gil Jung nos traz a história de Sook-Hee (energicamente atuada por Ok-bin Kim), uma mulher sedenta por vingar seu pai, mas que cai nas mãos de uma organização que a prepara para atingir seus alvos pré-determinados, como se uma mercenária pós-moderna. A guria é tipo um ciborgue, mas 100% humana. A primeira cena nos dá um prenúncio de sua capacidade, bem como dita a tônica do que será o filme pelas suas duas horas de duração.

A frieza de um ciborgue humano.

No melhor estilo Doom (o game mais tradicional em primeira pessoa), a obra se inicia a partir da perspectiva de Sook-Hee e a porrada estancando num corredor (eu considerei impossível não fazer uma mínima relação com a melhor cena de porradaria da História do Cinema, a cena do corredor em “Oldboy“), sem cortes aparentes. A plasticidade, a violência e a técnica impecável da sequência são os elementos principais que farão de A Vilã o seu oásis nesse deserto cinematográfico (para a semana) do estilo.

Durante a primeira hora – devo alertar – para quem não é especialmente fã do gênero, há uma agonia ao ser atropelado por tanta (mas tanta) porradaria. A impressão que o filme vai deixando é que sacrificou-se conteúdo, história, personagem, para um mero exibicionismo técnico nas fabulosas cenas de ação. Mas à medida que a obra vai se desenvolvendo, a relação vai se tornando inversamente proporcional. As cenas de ação observam hiatos maiores, enquanto começamos a costurar os flashbacks (que surgem desde o início) da vida de nossa protagonista. Nesse momento, o filme ganha muito em profundidade e conteúdo. Nesse momento, ele desabrocha efetivamente e percebemos que a obra é muito mais do que um exercício estético de alto nível de dificuldade em sua execução.

A filha da mercenária pós-moderna a brincar, mas não com sua mãe.

Numa trama complexa, estilo gato e rato, na qual a caça é a presa e a presa é a caça, a narrativa vai nos levando para caminhos cada vez mais obscuros até encontrarmos o ponto sem retorno. Junto com Sook-Hee somos surpreendidos por toda esta teia que nos aprisiona, limitando-nos o movimento, problematizando por completo uma perspectiva maniqueísta cegada pelo desejo de vingança. Por vezes, já falei que sul coreanos tem intrínseco ao seu ser o talento para falar sobre este tema; em A Vilã isso não é diferente. Não mesmo.

Utilizando alguns dos principais elementos observados nos filmes sul coreanos, como o núcleo familiar, violência (psicológica ou física), a temática supracitada, tudo isso contado de maneira visceral, Byung-gil Jung produz uma obra forte, bonita esteticamente, audaciosa, colocando lado a lado a velha dicotomia ao nos impor que há uma tênue linha entre o amor e o ódio.

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