Do diretor James Gray, chega aos cinemas brasileiros essa semana o longa estadounidense Ad Astra, com o indefectível (e quase sempre excelente) Brad Pitt e Tommy Lee Jones, um dinossauro amado por fãs de bom cinema no mundo todo. O filme conta a história de Roy McBride (Pitt), que, após uma descarga elétrica sem precedentes na Terra, é escalado em uma missão ultra-secreta e embarca numa viagem para os limites do sistema solar para encontrar seu pai desaparecido, Clifford McBride (Jones), e desvendar um mistério que ameaça a sobrevivência do nosso planeta. Só que, apesar do motivo aparentemente nobre, logo se percebe que o que está em jogo nessa missão é a relação um tanto traumática entre pai e filho.

McBride pai é considerado o maior explorador do espaço em todos os tempos. No entanto, seu legado está sob suspeita, uma vez que há anos cortou ligações com a Terra desde Netuno, onde está instalado. Seus superiores suspeitam de um motim e McBride filho segue rumo a Netuno para acertar contas com o passado.

O espaço solitário

Ao retratar um futuro distante (?), o diretor e roteirista James Gray pincela algumas realidades possíveis e bem plausíveis se consideramos o histórico de colonização humana dentro do nosso planeta. Por exemplo, em sua viagem à lua (em companhia comercial, onde o travesseiro e o cobertor para os passageiros saem à bagatela de 125 dólares!), nós nos deparamos com uma colônia humana com reluzentes letreiros do Subway e outras marcas de fast-food. Mais à frente, o personagem de Pitt é alertado sobre a presença de piratas lunares, que precede uma excelente sequência de perseguição que os leva ao famoso (e inexistente) lado escuro da lua : O ser humano lutando por recursos onde quer que esteja. “Somos destruidores de mundos”, diz um dos personagens. Ao que parece, esse é o nosso inexorável destino…

É preciso dizer que Brad Pitt manda muito bem, o filme inteiro. Sua atuação é o ponto alto aqui. Ele, que está virtualmente em 100% das cenas, imprime solidez e frieza ao personagem. Seu rosto o tempo inteiro mantém a sobriedade de quem está sofrendo, mas que entende que seu sofrimento é secundário diante da hercúlea tarefa que lhe é imposta. Ele admitirá que não consegue viver sozinho, ao mesmo tempo que não consegue se relacionar nem com a própria esposa (Liv Tyler, emulando seu papel de mulher de astronauta em Armaggedon). E, mesmo passando com louvor em todos os testes psicológicos aplicados por inteligência artificial (robôs tomarão o emprego de todos!), eventualmente quebrará e irá expor todo seu rancor em relação ao pai.

Indigente do espaço

A parte técnica do filme é impecável, e ele pede a tela grande. Portanto, apelo a todos os meus 17 leitores: não assistam um filme desses em seus malditos smartphones, ok? Seria criminoso, acredite! São belas as nuances de fotografia de acordo com o mundo em que os personagens aparecem: o preto e cinza da lua, o vermelho granulado de Marte, o azul de Netuno. Realmente um primor artístico e técnico. Além disso, a direção de Gray aliada ao roteiro e à montagem dão ao filme um ar bastante denso e contemplativo que são parte importante da narrativa.

No entanto, devo dizer que a verdade é que Ad Astra somente requenta um tema até interessante: a solidão do homem no espaço e sua busca por encontrar consigo mesmo ao atingir distâncias cósmicas. O problema é que esse tema já foi tratado, somente nesta década, por pelo menos quatro outros arrasa-quarteirões róliudianos: Gravidade (2013), Interstellar (2014), Perdido em Marte (2015) e Primeiro Homem (2018). De uma maneira ou de outra, todos esses filmes tratam dessa fuga emocional por abnegados exploradores do infinito. Cada vez mais, Hollywood infere que talvez o Espaço seja a nova fronteira em uma época de conectividade com humanos crescentemente desconectados.

Não é só um rostinho bonito…

Nesse sentido, o roteiro não é lá muito criativo e esse macro-enredo está fresco demais em nossos corações e mentes para ser mais uma vez usado. Isso tudo me faz recordar da brilhante ideia comercial das famigeradas paletas mexicanas (lembram-se?). A primeira loja foi legal e deu certo, a segunda foi na onda e se deu bem também. Mas da terceira em diante, ninguém já dava mais a mínima e a presença do produto/ideia era tão ostensiva que melou o negócio de todo mundo.

Portanto, é isso: Ad Astra é tão bom quanto uma paleta mexicana, se você (ainda) não está saturado delas. Mas nem por isso deixa de ser cinema de boa qualidade.

Sugestões para você: