Mulherzinhas, escrito em duas partes em 1868 e 1869 por Louisa May Alcott, é um daqueles livros que nascem clássicos. Sucesso em sua época e nos anos posteriores (famosos “livros de escola”), a saga das irmãs March – baseada na vida da própria Alcott e que segue quatro jovens tentando ser donas dos próprios destinos em um Estados Unidos em Guerra Civil e ainda preso a opressões da tradição – emocionou milhares de leitores e ganhou inúmeras adaptações no cinema e em outros meios. No entanto, a própria autora não curtia tanto assim o seu “filho”. Precisando desesperadamente de grana (quem não, né?), ela cedeu a todas as exigências de seu editor para tornar o livro atraente às vendas, o que, em sua opinião, o transformou em “papinha moral para os jovens”.

Agora, o clássico retorna às telonas em adaptação estrelada assinada pela excelente Greta Gerwig. E arrisco dizer que o resultado faria a feminista e abolicionista Alcott olhar o seu best-seller com mais carinho. Gerwig construiu uma produção poderosa e muito boa de assistir.

Os acertos começam na escalação do elenco. As quatros irmãs ganham vida através dos trabalhos de quatro atrizes que entregam performances extremamente sólidas. Duas delas, aliás, vão além e trazem duas atuações espetaculares. Vamos às moças, então. A começar pela protagonista Jo March, a irmã-escritora e alter ego de Louisa May, em excelente trabalho de Saoirse Ronan. Uma das atrizes mais fortes de sua geração, Ronan entrega uma protagonista forte, intensa, com uma pegada que transparece da expressão corporal à impostação da voz. Sua Jo é dionisíaca, explode na tela em uma presença que beira a insolência em certas cenas.

Como Meg March, a mais velha e professora das irmãs, Emma Watson entrega um trabalho de muita adequação, ainda que em alguns momentos seja eclipsada pelas outras três. Mas no geral, ela contribui com bastante competência ao desenvolvimento da narrativa. E com aquele olhar. Vocês já reparam como o olhar de Emma Watson é sempre muito forte? Bonito.

Trabalhando em outro espectro, Eliza Scanlen cria uma Beth March que brilha pela contenção. A irmã mais delicada e a musicista do grupo é uma aparição silenciosa, mas enérgica. No miudinho de suas cenas e de sua perspectiva, é dela que sairá a gênese das reviravoltas do roteiro. Ela imprime à cada cena um halo de paz inquieta e emoção pulsante.

Mas, leitor Metafictions, eu avisei nesse mesmo na resenha de “Lady Macbeth“, em 17 de agosto de 2017, que nascia uma estrela e que seu nome era Florence Pugh. Eu não estava errado e a detentora do, criado apenas para aquela crítica, “Selo Meryl Streep de Atuação” rouba a cena mais uma vez. Amy March, a impetuosa das irmãs, a artística e, por vezes, frívola, é de tirar o fôlego. Miss Pugh atua de forma tão gigantesca que sua personagem excede o próprio roteiro e cria subtextos que recheiam a sua vida em tela. Precioso, esmerado, cerebral e forte. Quatro adjetivos para o trabalho da mais impactante das quatro irmãs. E aquela voz? E a-que-la VOZ?

O resto do elenco também manda ver e repercute a competência da diretora. No papel da mãe da família, Laura Dern prova mais uma vez porque é uma atriz sempre citada por outros atores como símbolo de competência. Timothée Chalamet, que deveria me pagar um dólar por cada vez que o elogio, se mostra a única escolha possível para dar vida a Laurie, o vizinho rico e a personificação de um poeta romântico que se envolve em um triângulo amoroso com Jo e Amy (situação infelizmente contornada de forma meio apressada no, de resto, ótimo roteiro). E, pra colocar uma joia numa coroa já cravejada, a rabugenta, rica, solteirona e dona das frases afiadas Tia March ganha mais uma estrelinha dourada na conta de trabalhos maravilhosos da única, inimitável, incomparável, esplendorosa e multivitamínica Meryl Streep.

Adoráveis Mulheres há de ser lembrado também por dar uma aula de tratamento do tempo dentro da diegese do filme. Greta Gerwig ousa em seu roteiro quando recusa a linearidade temporal do romance e desconstrói este aspecto narrativo sobrepondo passado e presente sem se valer do recurso clássico de legendas explicativas. Como ela faz isso? Explorando ao máximo três elementos de construção fílmica: edição, fotografia e desenho de produção. Toda a temporalidade é dada pela junção desses três. A fluidez da montagem se une a uma fotografia impressionante que, através de sutilezas nos tons, se junta a um desenho de produção impecável, que, ao explorar cromaticamente os espaços e se apoiando também em cabelos, maquiagem e figurinos, “conta” o tempo e a história.

Com suas mãos na direção e no roteiro, Greta Gerwig mostra mais uma vez que é uma das vozes mais interessantes e autorais do cinema contemporâneo. Sua câmera mostra aqui um amadurecimento visual profundo em comparação ao anterior “Lady Bird: É Hora de Voar. Na escrita, ela consegue a façanha de podar os exageros moralizantes do romance original, transformando em ação o que lá era discurso, mas sem perder a coerência e o senso de pertencimento ao texto-base. Assim, estão em Adoráveis Mulheres o ethos inspiracional, o empenho em exaltar a família e os afetos e até mesmo um certo ar “bobinho/inocente” de narrativa dezenovesca. Mas eles aparecem ressignificados.

E é nessa ressignificação que a produção brilha. Gerwig faz com que a narrativa de Alcott se torne atual. Subvertendo através de um ousado recurso que, ao mesmo tempo, rompe e mantém o desfecho original do livro, ela aponta um aspecto que reforça a relevância da obra ainda hoje. Adoráveis Mulheres acaba sendo uma declaração de que, seja em 1800 e tanto ou em 2020, mulheres ainda precisam gritar que, nas palavras da protagonista, elas possuem mentes, alma, ambição e talento, mais que apenas corações e beleza. É um filme forte e sensível. Simples e sofisticado.

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