Anton Tchekhov disse “Nós não somos felizes, e a felicidade não existe; apenas podemos desejá-la“. Obviamente o conceito citado é absolutamente pessoal e, apesar de ser grande fã da obra do escritor e dramaturgo russo, não posso dizer que concordo com a frase. No entanto, parece que Salvador Calvo, diretor de Adú, queria nos fazer refletir sobre a possível veracidade da frase. Inspirado em fatos reais, o filme conta uma pequena parte da trajetória de vida de 3 personagens: Mateo, (Álvaro Cervantes, ator que já havia trabalhando anteriormente com Salvador) um policial civil enfrentando o sentimento de culpa por ter participado de uma fatalidade que envolvia seus colegas de trabalho e imigrantes ilegais, Gonzalo (Luis Tosar) um ativista rico defensor dos elefantes lutando bravamente contra caçadores e o comércio ilegal de marfim que não consegue se relacionar com a própria filha, jovem que, a propósito, está se aventurando nas drogas só por hobby e, por fim, um menino de apenas 6 anos – cujo nome é o título do longa espanhol – que, além de perder tudo que ama, é cercado por ambientes hostis e organizações criminosas, e é obrigado a lutar por sua sobrevivência. Existe uma inteligência na construção da hierarquia de idade e sócio-econômica dos personagens e na complexidade dos fatos, talvez por isso ou porque as histórias acontecem ao mesmo tempo e muito próximas, passamos grande parte da narrativa buscando um elo entre elas, ou quem sabe um plot twist, porém, (spoiler) contrariando as nossas expectativas e fazendo jus à frase de Tchekhov, não há.

A jornada sofrida de Adú (Moustapha Oumarou) é certamente o que mais nos toca no drama, não só porque o ator fez sua estréia atuando lindamente, como gente grande e gerando encantamento e instantânea proximidade emocional com o espectador, mas principalmente pela inocência do personagem, por sua capacidade de ser feliz quando não tem nada além do vazio, da ausência de perspectiva. Tosar pode até ser um dos atores mais reconhecidos e premiados na Espanha, mas a estrela dessa obra, a beleza em meio ao caos, é, sem dúvidas, Moustapha. Adú levanta muitas questões. Questões sérias, de extrema importância. Todavia, segue uma linha de raciocínio onde o foco principal não é se aprofundar em nenhuma delas, na verdade tudo se transforma em uma grande analogia para a reflexão de que todo ser humano está fugindo de algo ou alguém, seja qual for sua raça, etnia, classe social etc. “Resolva seus problemas” é como um dos policiais na história se limita a significar a razão pela qual a cerca entre Marrocos e Espanha foi construída, traduzindo o fato apenas como um forte incentivo ao crescimento e amadurecimento de uma nação. É preciso muito romantismo pra engolir essa, mas é provável que essa seja a mensagem por trás de uma boa dose de sofrimento.

Compreendo que falar a fundo sobre o descaso com milhares de refugiados no mundo ou sobre as leis frágeis que permeiam o descontrole na proteção de animais brutalmente assassinados a fim de que tenham suas partes vendidas ou sobre o papel da polícia que justifica atos cruéis com autoridade acima do bem e do mal ou sobre – certamente o crime que mais me enoja – pedofilia associada à prostituição infantil ou sobre racismo, xenofobia, enfim, seja difícil e até indigesto às vezes, porém, se todos esses temas são colocados a disposição durante 2 horas, envelopados na beleza de uma criança, apenas para que façamos uma digestão e soframos logo depois de ardência no esôfago, a famosa azia, e somente isso, eu diria que perde-se um pouco do propósito de oferecer a bandeja com tantas informações.

A arte tem e sempre terá seu papel transformador e revolucionário, mas estamos diante de uma obra que retrata a ausência de esperança e mudança em relação a inúmeros abusos sócio-culturais que infelizmente, ainda não deixaram de ser atuais.

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