Eu sempre gostei do Ricky Gervais. Desde que ele apareceu para o mundo com a versão inglesa e original do fenômeno que é “The Office”, ele vem trazendo ao público obras cada vez mais íntimas, pessoais, relevantes e, após ter visto After Life, não tenho qualquer outro adjetivo que não geniais. Em “Derek” – uma série (indicada em nosso Garimpo) subestimadíssima passada em um asilo e protagonizada por ele mesmo como o infantilizado e doce Derek – ele já havia apresentado uma obra pequena, despretensiosa, mas que fala de tudo que nos faz humanos. Aqui em After Life, Gervais refina o seu roteiro de forma não menos que brilhante e nos traz uma história tocante, engraçadíssima, pertinente e atemporal, que me fez rir e chorar com a mesma intensidade e, principalmente, sinceridade.

After Life é vendida como uma comédia, mas ela vai tão além que restringi-la a este gênero exclusivamente é quase que criminoso. Não se engane, contudo. Ela é, sim, uma comédia, e faz rir como poucas, mas uma comédia daquelas que nos elevam a sentir muito, mas muito mais do que a elação de uma mera e efêmera risada, valendo-se do cômico também como contraponto do drama que é existir, resultando numa belíssima ode ao amor. Apesar de ser completamente diferente, uma outra série cômica que também extrapola o gênero é Atlanta, mas se em Atlanta o também genial Donald Glover se vale da comédia para fazer sua pertinente crítica social, Ricky Gervais nos traz uma reflexão do que é ser humano e do quanto somos definidos por nossas relações com aqueles que amamos e que nos amam.

Aqui Gervais interpreta Tony, um sujeito que acaba de perder a mulher com quem ele tinha uma relação que, num primeiro momento, parece impossivelmente harmoniosa. Devastado pela perda, sem qualquer norte na vida, Tony tenta o suicídio e passa a série toda dizendo para todos que só não conseguiu porque sua cachorra Brandy (fofíssima) olhou pra ele com cara de quem queria comida. Temos aqui então uma obra que lida com temas pesadíssimos. Luto, depressão profunda e suicídio são coisas que raramente estão associadas à comédia e, quando estão, costumam ser de extremo mau gosto, com piadas e situações que se prestam somente a chocar. Gervais quebra esse paradigma e apresenta uma produção cheia de elementos que, a princípio, parecem dicotômicas, mas que andam de mãos dadas o tempo todo.

Ricky Gervais produz, estrela, dirige e roteiriza a série e é, ao mesmo tempo, o grande ponto positivo dela e seu único quase negativo. Seu roteiro é nada menos que impecável (e eu talvez não tenha vocabulário suficiente para exaltar a escrita de Gervais tanto quanto ela merece) e o seu Tony é um personagem talhado sob medida para o próprio Gervais interpretar – um sujeito extremamente escroto que entendeu que não tem mais porra nenhuma a perder e sai por aí falando e fazendo o que quer -, mas sua direção é no máximo correta. E é isso. O único problema da série jaz no fato de que todo o seu brilhantismo em absolutamente todos os outros aspectos não é acompanhado pela direção, que, mesmo assim, está muitíssimo longe de ser ruim e que está a léguas de prejudicar a qualidade geral da obra.

A narrativa se desenvolve com Tony sendo basicamente importunado pelas pessoas que o amam e que reconhecem nele um puta cara enquanto ele está perpetuamente de saco cheio de tudo, pronto a qualquer momento para morrer, desde que sua mulher morreu. De amizades antigas – como a do pessoal do trabalho -, passando pelas novas – uma prostituta de rua, um viciado também numa merda profunda e uma viúva – e pela família – seu cunhado, sobrinho (Tommy Finnegan, o possivelmente mais fofo molequinho com cara de inglês que já vi) e seu pai com alzheimer que ele visita diariamente -, Tony é cercado de muito, muito amor. E sua resposta, contudo, é o sentimento de auto-comiseração comum àqueles dentre nós que perderam pessoas amadas e a sensação perene da culpa dos que ficaram, dos que sobreviveram aos amados, em um nível que faz com que às vezes seja até difícil sentir qualquer empatia por aquele cara deveras escroto que está sofrendo e egoisticamente esquece que o resto do mundo também está, também tem seus problemas e que ele não é o centro de tudo.

As circunstâncias, portanto, colocam Tony em situações que, incrivelmente, se tornam engraçadas, como a vez em que ele está falando de ter tentado se matar com uma mulher que o esculacha brutal e hilariantemente por ter fracassado ao tentar fazer algo que, de tão ridiculamente fácil, até o imbecil do marido dela tinha conseguido. E o tom de comédia da série é ainda mais abrilhantado por um elenco coadjuvante que não só inclui Diane Morgan, uma das melhores comediantes atuais na Inglaterra, mas também diálogos e situações escritas por Gervais que se prestam a todo momento a pavimentar o caminho dessa jornada doloridíssima de um novo auto-descobrimento que Tony precisa percorrer.

A grande moral aqui está numa coisa que todos nós sabemos desde sempre, mas que parece que fazemos questão de ir esquecendo cada vez mais com o passar dos anos. A grande, maravilhosa, onipresente e onipotente pieguice que é o amor. O Faustão tem total razão quando diz que só o amor constrói e é só ele que pode nos salvar. Por mais que todos tenhamos diferenças, uma coisa une absolutamente todos os seres humanos. Todos nós amamos e amamos o tempo todo, a cada momento e em toda parte. Estamos cercados disso o tempo inteiro e é muito triste que às vezes precisemos de um cara como Ricky Gervais, o sujeito mais cínico e debochado do show business, para nos lembrar disso.

Talvez eu não tenha conseguido concatenar bem as minhas ideias nas linhas acima. Mas eu as escrevo logo após ter maratonado os 6 episódios de 25-30 minutos da série e ainda estou bem atordoado por ela. Não é sempre que isso acontece e peço desculpas caso o texto tenha ficado desconexo. Mas é por isso mesmo que hoje eu, Gustavo David, dou a minha primeira nota máxima da história do MetaFictions em qualquer coisa. O efeito que a série teve em mim é a razão de ser de toda e qualquer Arte e rogo, para o bem de todos vocês, que ela tenha o mesmo efeito em todos. Trata-se de uma obra na qual não há qualquer elemento que não satisfaça plenamente aquilo a que se propunha e a maior parte deles ainda vai além.

Uma verdadeira, e falo isso aqui sem medo nenhum, obra-prima de Ricky Gervais, sua melhor e mais bela criação dentre tantas boas e belas criações, contando ainda com uma trilha sonora maravilhosa e um subtítulo lamentável na tradução para o português, mas que em nada mancha a obra e esta joia de roteiro para o qual eu já não tenho mais palavras. Uma série simples, sem grandes floreios de cinematografia ou roteiro e que encontra nessa simplicidade um abrigo inabalável formado pelas palavras de Gervais.

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