Sem querer bancar o professor, mas já na persona de um, confesso que sou um entusiasta sobre qualquer tema relacionado ao Pleistoceno. Essa época do nosso planeta – que compreende um período pequeno entre 2.5 milhões e mais ou menos 11 mil anos atrás – marca os ciclos de glaciações da Terra, com a última tendo iniciado há 100 mil e terminado 12 mil anos atrás. Essa época foi de extrema importância para a história da humanidade, pois durante as glaciações ocorreu a travessia para as Américas, vimos o fim de outra espécie humana que compartilhava o planeta conosco, o homem de neandertal (que compartilhava 99,7% do nosso DNA), e, acompanhando nossos irmãos primatas rumo a extinção, havia a incrível megafauna, com os icônicos mamute, mastodonte, tigre-dente-de-sabre, urso-das-cavernas, leão-americano e a preguiça-gigante. Nesse período também ocorreu algo que mudou a humanidade: a domesticação do lobo, que, estima-se, ocorreu entre o período de 100 mil a 15 mil anos atrás na Europa e na Ásia.

E eis que chega aos cinemas Alfa, longa passado 18 mil anos antes de Cristo, em uma janela que contempla tudo de importante citado no parágrafo anterior, em especial a domesticação desse canídeo. O filme apresenta uma proposta simples e com uma execução tecnicamente muito boa, mas que peca no seu desenvolvimento. Em resumo, um grupo de caçadores vai em busca de uma manada de um tipo de ungulado (animal com casco), lembrando um búfalo com pelagem de bisão, antes do rigoroso inverno glacial chegar. Durante a caçada algo dá errado para um dos caçadores e ele é deixado para trás todo quebrado, tendo que se virar junto a um lobo (também abandonado por sua alcateia em semelhantes circunstâncias), para voltar a sua tribo a mais de 1 semana de caminhada.

O foco da obra, como bem você pode perceber pelo título, é a questão do macho alfa, do líder, daquele que serve de exemplo a ser seguido, que protege o grupo, mas é constantemente desafiado por ele. É aí também que o longa cai por terra. Kodi Smit-McPhee, ator que dá vida ao protagonista Keda, tem aquele semblante de gente indecisa, fraca e sem culhões para fazer o necessário quando preciso. O tipo de gente que você não escolheria pro seu time de futebol, muito menos confiaria em situações de vida ou morte. Kodi é tão especializado nesse tipo de papel, que ao olhar sua carreira você o encontra dando vida ao garotinho lerdo do “Deixe-me Entrar” (indicado em nosso Garimpo NETFLIX: Vampiros!), o Noturno cagão do “X-“Men: Apocalipse“, o adolescente que precisa de proteção em “Planeta dos Macacos: O Confronto” e, o mais icônicos de todos, o filho indefeso do Viggo Mortensen em “A Estrada“. Não tem como acreditar, em hipótese alguma, que Keda consiga sair vivo das situações severas pelas quais passa.

Outro ponto que incomoda muito é a relação entre ele o lobo, que passa longe de ser cativante, embora o lobo se esforce bastante nessa relação. A impressão com a qual saí do cinema foi a de uma domesticação inversa, como se o lobo estivesse ensinando ao Keda a ser um macho alfa, tirando o envolvimento emocional que eu poderia ter com o longa. Esperava algo perto do que temos no clássico “Caninos Brancos” (com crítica da sua adaptação animada no site), com uma construção de confiança edificada lentamente e não em eventos urgentes de perigos naturais extremos em sequência.

Contudo, a representação da fauna e das paisagens naturais, com grandes estepes dominando a vegetação europeia criadas por belos efeitos especiais, foi um agrado aos olhos. Os rituais dos homens das cavernas e a relação entre grupos, já que não temos muitas evidências arqueológicas – com a exceção das pinturas rupestres e alguns artefatos encontrados – contam com alguma liberdade criativa, mas que não chegam a ofender o bom senso (talvez tirando as barbas excepcionalmente bem feitas) e conseguiram me cativar no terço inicial da obra. E é uma pena que seja assim, um longa que aponta para algo realmente interessante e feito com competência, mas que não consegue se sustentar conforme se desenrola, salvando-se apenas nos visuais impressionantes.

Como resultado, Alfa consegue retratar bem uma época desafiadora para a humanidade, com animais icônicos da pré-história à espreita por todos os lados e um clima extremo do final da nossa última era glacial. Pena que o protagonista é um macho beta do início ao fim.

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